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Os Deficientes na Família e na Sociedade Espírita

Visão integrativa do ser proporciona melhores resultados

Com o objetivo de contribuir, de alguma forma, na plena integração das
pessoas portadoras de deficiências nas Casas espíritas apresentamos alguns
subsídios extraídos de nossa convivência gratificante com os chamados
“excepcionais”. Iniciamos fazendo algumas considerações teóricas porque nos
pareceram necessárias como argumentos em defesa da viabilidade e importância da
presença participativa dos deficientes dentro do movimento espírita.

1) AS DIFICULDADES DA INTEGRAÇÃO – Os portadores de deficiências ainda
não estão suficientemente integrados na sociedade espírita. Essa afirmativa não
significa que existam discriminações propositais ou que a sociedade espírita
tenha para com eles uma atitude e um procedimento diferentes das demais
coletividades. O que desejamos salientar é o desnível entre os princípios da
Doutrina Espírita sobre a vida, o ser, o destino e as conseqüências práticas
retardadas, dentro do objetivo expressado pelos espíritos a Allan Kardec no
alvorecer da Codificação: “É ao mundo todo que se trata de agitar e
transformar”. Diante da árvore mais fértil plantada na Terra após o
cristianismo, parece-nos que os frutos estão espalhados pelo chão como se
tivéssemos o privilégio de só colher o que satisfaz à fome de cada um de nós. A
Doutrina Espírita tem tal sabedoria e profundidade que não basta conhecê-la por
leitura e por estudo. Seu tríplice aspecto, em caráter de síntese das verdades
que a filosofia, a ciência e a religião procuram separadamente sem encontrar
(exatamente por estarem separadas) necessita repensares a cada experiência de
vida, a cada geração de pessoas, a cada descoberta do progresso. A ultrapassagem
do mecanismo reducionista newtoniano e do racionalismo do método cartesiano, que
ensinaram a classificar e a pensar com clareza, levou, pela lei do progresso
contínuo, ao novo paradigma, de que tanto se fala hoje, próximo ao holismo
integrativo, sem perder a centralização monista. É ainda no Espiritismo, tal
como codificado por Allan Kardec, que encontramos o marco inicial desse
paradigma e as bases para a civilização dos próximos séculos – “Tudo se
encadeia, tudo se liga no universo” é a frase-chave da nova visão cultural e,
sob ela, todas as circunstâncias, situações e variedades assumem importância
imprescindível à harmonia do todo, cujo fulcro irradiador é “A Causa primária, a
Inteligência Suprema”. Não é fácil, hoje, avaliar corretamente a transcendência
do aparecimento histórico cultural do Espiritismo na Terra. Menos fácil é a
aplicabilidade na vivência pessoal e ainda menos fácil a projeção na sociedade
da função transformadora que ilustraria o objetivo implícito nessa
transocialização entre encarnados e desencarnados. Os grupos sociais, unidades
da sociedade, não são simples soma das pessoas mas uma terceira realidade que
tende a exercer pressão e hegemonia sobre cada um dos indivíduos que os compõem.

A Cibernética Social, estruturada pelo sociólogo Waldemar de Gregori, analisa
a sociedade dentro de uma ótica sistêmica, entrelaçada nas telas de um “Show
planetário”. O indivíduo busca sua difícil auto-condução, em meio a um jogo
triádico, tendo de um lado o Poder ou a situação dominante Oficial, do outro
lado, o apelo natural de Renovação e, no centro, a posição Oscilante, entre um e
outro, não propriamente procurando o equilíbrio mas permanecendo indecisa sobre
o rumo a tomar. O contexto natural renovador acaba se sobrepondo e obtém o poder
da oficialidade que, temporariamente, se estabelece e fica conservador até a
repetição do processo. Essa trialética lembra as observações otimistas de Kardec
sobre a transformação da sociedade através da influência da minoria tendente à
verdade e ao bem sobre a maioria indecisa, para defender a sua certeza absoluta
de que “o bem vencerá”. A Cibernética Social destaca a “dinamização das
potencialidades” como agente do processo de mudança, tanto no nível individual
como no nível grupal, societário e universal.

Referimo-nos, de passagem, à visão da Cibernética Social para reforçar as
afirmativas que unem a clareza cartesiana, utilizada por Allan Kardec nos livros
da Codificação, às atualíssimas concepções da trialética holística. O que se tem
de verdadeiro em nossa modernidade já estava presente na magnífica síntese
publicada na Terra em 1857 sob o nome de O Livro dos Espíritos. O
objetivo das encarnações é a evolução, que pode ser expressada como o processo
do desenvolvimento das potencialidades dos filhos de Deus, herdeiros do reino do
Pai, por direito de criação.

É nesse contexto que colocamos a primeira afirmativa do nosso tema e que
podemos compreendê-lo. Não, certamente, aceitá-la passivamente sob pretexto de
suas dificuldades mas procurar os pontos vulneráveis que permitirão concretizar
uma das condições mais decisivas para a fraternidade humana: o relacionamento
empático de um para com todos, sem exceção. Por isso Jesus disse: “Ama a teu
próximo como a ti mesmo”, abrindo a primeira porta da libertação dos viventes na
Terra, a partir das experiências comuns aos aprendizes, ainda na fase de um
periférico amor a si próprio.

A frase evangélica, sábia entre as mais sábias, faz surgir novas conotações
humanas na busca de vocábulos ligados à harmonia, cuja falta se traduz em
inquietação, insegurança, medos e infelicidades. Uma dessas conotações está na
palavra Empatia, desenvolvida por Carl Roger, na qual o outro é, em essência,
igual a mim; o que busco, ele busca; o que faço nem sempre ele consegue fazer
mas muito do que ele faz eu não sei fazer; então, estamos interligados como
equipe, permutando capacidades para chegar à vitória, jogando no mesmo time. As
considerações acima colocam o significado da integração humana dentro da empatia
como condição de dignidade de vida. Mas as pessoas portadoras de deficiências
são vistas como elementos estranhos onde quer que estejam, exceto nos poucos
lugares destinados aos tratamentos especializados. O drama social que enfrentam
está no fato de apresentarem suas diferenças tão ostensivamente que é difícil
não se tornarem focos de atenção e, a seguir, de retração. Talvez essa retração
(que leva à rejeição e à discriminação) disfarce uma espécie de medo e
auto-defesa, provocados pela desconfiança de que se o fato ocorre com alguém da
espécie humana pode acontecer conosco e a qualquer momento. Como de fato pode.

2) O PROCESSO INTEGRATIVO COMEÇA NA CONCEPÇÃO – Cinco a dez por cento
dos recém-nascidos podem apresentar, ostensivamente ou discretamente, situações
atípicas ou riscos no futuro desenvolvimento. Lesões cerebrais por anóxia e
outros acidentes ocorridos durante o nascimento, síndromes cromossômicas e
genéticas instaladas na concepção ou problemas mínimos ou grandes no
desenvolvimento das etapas de ovo, embrião e feto. Nasceram, sobreviveram e vão
enfrentar difíceis obstáculos para ultrapassarem o tempo daquela encarnação. Não
tivessem eles muita determinação e forte vontade, não se candidatariam a tais
dificuldades. Salvo exceção, a mente do espírito sabia, aceitara e geralmente
pedira o encontro com esses obstáculos, contando com a retaguarda afetiva de
amigos do passado que o receberiam. Com certeza souberam acerca dos riscos do
renascimento numa sociedade onde os valores ainda estariam vinculados aos
aspectos viso-externos. Por tudo isso temos de considerá-los espíritos
destemidos.

A integração humana começa na concepção, ou melhor, antes dela quando o
“campo” vibratório da futura mãe se torna um ímã de atração para o futuro filho,
dentro do envolvimento já existente e do plano reencarnatório, delineado,
escolhido, aceito ou imposto para os encontros naquele trecho do caminho da
vida.

A contribuição do Espiritismo é urgente nesse início de interação e empatia,
ainda porque cada nascimento é uma resposta ao apelo da fraternidade e cada
resposta pessoal interfere na humanidade toda. Essa contribuição acresce de
importância nas encarnações difíceis, cujo número está percentualmente
aumentando em nossa modernidade. Vários livros e pesquisas estão sendo
divulgados identificando que o preparo para o convívio harmonioso e para a vida
plena começa no diálogo com o bebê no ventre materno. Afirmam que é,
efetivamente, um diálogo, pois o adulto fala e o feto responde como pode, sendo,
é claro, mais receptivo que expressivo. Esses alguns livros são contudo poucos,
além de se posicionarem dentro de modelos acadêmicos. Não ousaram avançar antes
dos primeiros movimentos do bebê sentidos pela mãe e se omitiram de aspectos
espirituais. Que pena! Os livros recebidos por Chico Xavier, notadamente a série
André Luiz, forneceria a esses escritores e pesquisadores, um imenso oceano de
informações. Que esplêndido programa poderão as sociedades, as instituições, os
centros e as casas espíritas desenvolverem nesse sentido! Ouviremos: “Já está
sendo feito esse trabalho. No Brasil a gestante, principalmente a carente,
recebe assistência pré-natal em inumeráveis serviços espíritas, acrescidos de
cursos sobre o nascimento, confecções de enxovais e fluidoterapia através de
“passes”, além de sugestões educacionais. A nosso ver isso é muito bom mas é
ainda muito pouco e qualitativamente pequeno diante dos recursos oferecidos pela
Doutrina Espírita na sua abrangência metassocial. Movimentos estão surgindo em
São Paulo prenunciando boas esperanças de expansão como o VITA, criado em 1990
para a Valorização da Vida intra-uterina e a Materialidade Holística, referida
no livro recém lançado do confrade Marcos Augusto de Azevedo.

3) O BEBÊ ATÍPICO NASCEU E SOBREVIVEU – Foi bom ele ter nascido? As
respostas variam. Os preocupados com a situação sócio-econômica lembram que ele
é um dos 10 em cada 100 que vão agravar ainda mais os problemas da Terra,
ligados à produção e à distribuição de recursos. Os adeptos das religiões
apresentam respostas diversas: “A vontade do Todo poderoso quis assim”, ou
simplificadamente: “É o Karma”. A ciência de retaguarda, procurando ser
humanista, poderá dizer: “Provavelmente, morrerá cedo”. Os amigos, compadecidos,
dirão ao bebê: “Coitadinho, é um anjinho” e aos pais: “Estamos com vocês nesse
drama tão triste” e aos vizinhos “Souberam da tragédia acontecida na família dos
Silvas?”.

Essas frases, em estilo informal, apresentam por abrangência as outras
variedades. Em todas, ele, o bebê atípico, é o indesejável, o subconscientemente
rejeitado. A nós, participantes da coletividade reencarnacionista, uma dessas
respostas merece maior análise. É aquela que, lembrando por atavismo cultural a
Pena de Talião: Olho por olho, dente por dente”, condena sem julgamento e coloca
sobre os frágeis ombros do bebezinho excepcional, arbitrariamente os
qualificativos da criminalidade, em nome da Justiça divina, que, nesse sentido,
fica menor que o Amor. Por mais que a coletividade espírita esteja falando e
escrevendo sobre o que dissemos acima, ainda é pouco. Não porque queiramos mas
porque, como nos lembra André Luiz, “Contra os nossos anseios de claridade temos
milênios de sombras”. A vocação punitiva, tão enfatizada no Velho Testamento,
resiste à plenitude do Amor dos Evangelhos cristãos.

O bebê deficiente está no seu berço de redenção. A família se entristeceu e
se decepcionou por ele ter nascido como nasceu. Lembra-nos um dos personagens do
extraordinário livro “Memórias de um suicida” (ditado à médium Ivone
Pereira), que renasceu sem os braços. Na intimidade, seu espírito estava
felicíssimo. recebera a oportunidade tão solicitada. Amigos desencarnados se
regozijavam, ainda porque ele voltara ao aconchego dos mesmos comparsas de
escuras tramas do passado. Finalmente surgira o momento da decisiva renovação
para todos. Mas, aqueles mesmos familiares de hoje e de outrora, choravam a
desgraça que acontecera por lhes ter nascido um bebê defeituoso.

4) O ESTIGMA MORAL – Nosso bebê cresceu. É agora um menino. Não fala,
não anda, talvez tenha hipertonia muscular e movimentos convulsivos dificultando
suas necessidades vitais. Talvez faça algumas coisas comuns, porém com
dificuldades. Tem tanto a dizer e não consegue se expressar. É um espírito
preso! Então se diz dele: “É o criminoso que voltou”, criando-se o mais terrível
dos estigmas. Chamamos a esse, o “estigma dos reencarnacionistas distraídos!”. E
ousamos dizer que é um chamamento muito delicado. Tal como comparamos a
felicidade à sintonia com as leis divinas, sob a luz do Espiritismo, pudemos
comparar a experiência difícil com a redenção concentrada ou a renda do tesouro
acumulada. Sim, é para resgatar dívidas contraídas, mas o passado ficou lá atrás
e o presente é o novo dia projetando-se para o futuro. O estigma moral colocado
sobre os deficientes de hoje é uma confusão entre passado e presente, uma
distração interpretativa diante da tese espírita sobre a evolução. No agora dos
deficientes há muito do “Filho pródigo” da parábola evangélica, voltando à Casa
Paterna.

Um dos riscos na compreensão da Lei de Causa e Efeito está em se enfatizar os
aspectos dramáticos de preferência aos abençoados atalhos, que são estreitos e
árduos, mas necessários à gloriosa escalada na montanha do auto-aperfeiçoamento.
Coloca-se sobre as palavras “Expiação” e “Provas” uma sobrecarga pejorativa,
também arbitrária, que as faz sobressair sobre a finalidade fundamental das
reencarnações, em suas múltiplas variedades, dentro das duas metas expressadas
na célebre resposta 132 de O Livro dos Espíritos… “a Perfeição” e,
depois, “tornar a criatura apta a colaborar na obra do Criador”. Sobressai o
dueto passional crime-castigo como se não estivesse tão clara a certeza de que
Deus é Amor. Expiação e Provas são desvios comuns do trânsito, possibilitados,
menos por punição do que pelo amor contido no centro da Lei Divina. Parecemo-nos,
às vezes, na situação ilustrada na frase profunda e pitoresca: “Engolindo um
elefante e coando um mosquito”.

Nosso menino entrou na faixa etária escolar e não poderá freqüentar as
escolas comuns. Contudo tem o direito à educação e ao tratamento, ao lar e à
participação em todos os recursos ao seu alcance, porque ele é, antes e acima de
tudo, uma Criança vivendo sua fase infantil. Precisa de Habilitação especial e
essa terá efeitos satisfatórios se considerá-lo como um ser integral, com
necessidades de desenvolvimento tanto bio-psico-sociais como espirituais. Aí
surgem as maiores dificuldades. Há instituições assistenciais para os cadencia
dos de poder aquisitivo, há clínicas sofisticadas para as famílias de bom nível
econômico. A classe mais defasada é a classe média, a maioria. Geralmente os
programas, mesmo os melhores tecnicamente, omitem enfoques espirituais e,
conseqüentemente, ficam descartadas as avaliações de profundidade e a
conseqüente valorização da experiência de vida desses deficientes. Sem a
valorização é óbvio que continuarão as rejeições e as marginalizações
sócio-culturais e afetivas.

Pensamos que a sociedade espírita tem todas as condições para preencher esses
espaços vazios criando e desenvolvendo serviços alternativos para complementar a
integralidade da assistência. Ousamos afirmar que, sob variadas formas, a
sociedade espírita está sendo convocada a se mobilizar também nessa área. Não se
trata propriamente de se sobrecarregar com a criação de construções
especializadas, mas de oferecer mais ampla contribuição às que já existem,
principalmente na área específica da vivência espírita, como na fluidoterapia
pelos “Passes” e nas diversas formas comuns na Casa espírita que podem se
ampliar em favor dos deficientes.

Algumas instituições receberam convites diretos, impossíveis de serem
desatendidos. Isso deve ter acontecido com os trabalhadores do Centro Espírita
Nosso Lar – Casas André Luiz. Tal ocorrência também surgiu na Instituição
Beneficente Nosso Lar a que estamos ligadas. Um dia jogaram na porta um
recém-nascido envolvido em finas roupas nas quais estava preso um cartão com os
dizeres: “Mãe desesperada conta com vocês”. Era um bebê visivelmente deficiente.
Esse fato levou a Instituição a criar um Departamento especializado e o
desespero daquele cartão, no qual a rejeição se apresentava na forma de dor,
ainda hoje, passados mais de trinta anos, nos mobiliza em favor da
desmarginalização desse tipo de bebês.

5) A PREVENÇÃO NECRÓFILA – Ojetivando a Prevenção e a Eugenia como
ideais sanitários e, sob o critério hedonista projetado na chamada “boa
qualidade de vida”, tenta-se colocar na Legislação brasileira a solução
salvadora e preservadora da vida, através do aborto provocado. Para a plenitude
biófila, a solução necrófila. O pretexto mais repetitivo e, aparentemente mais
incontestado, é o de impedir o nascimento de bebês atípicos ou anômalos. Na
horizontalidade do panorama social esse pretexto até parece válido embora a
eficiência da detectação laboratorial possa ser discutível e apesar de que,
aberta essa primeira porta, toda e qualquer tentativa de nascimento, normal ou
não, encontrará o risco de não ser efetuada. É a Pena de morte decretada aos
bebês como alternativa às penas da sobrevida. Fácil imaginar a que oceano esse
riacho de sangue nos poderá levar!

Organizações destinadas à saúde e à criança defendem esse crime em nome do
bem estar social da humanidade, o que é espantoso. Lembra-nos a famosa história
do rei que tinha um problema: 9 chapéus e 10 cabeças. Os sábios deram a solução:
Corte-se uma cabeça.

Longe estamos do tempo em que os conhecimentos, a assimilação e a
aplicabilidade dos princípios espirituais da vida venham a inspirar as decisões
da Terra. Pode ser que o Aborto, a Pena de morte e a Eutanásia – 3 parentes
literalmente consangüíneos – venham a ser legalizados em nosso país. Não
conseguiremos, talvez, deter os documentos escritos mas podemos semear as
idéias-raízes, ilustrar seus frutos nos procedimentos de nossas Casas espírita.
A vida do corpo, tanto quanto a vida do espírito precisam ser valorizadas pois
se ao espírito cabe “intelectualizar a matéria”, é o corpo físico, ou é nele,
que se realiza o desenvolvimento das potencialidades latentes do espírito.
Pensamos que podemos seguir na direção inversa, divulgando, divulgando e
divulgando o significado e a valorização da vida, não como etnocentrismo
religioso mas com a certeza de que há, embutida na intimidade de todos os seres
humanos, a expectativa dessa valorização. O Espiritismo modifica de tal forma as
conotações, que as expressões, tão usadas no modismo de hoje, aparecem sobre
outros aspectos, não como “Remendos novos em panos velhos” mas com resgates dos
seus verdadeiros significados. As metas da vida, sintetizadas no aperfeiçoamento
contínuo, nos fazem perceber onde estão as causas dos problemas humanos. Pelas
causas descobrimos os verdadeiros recurso de Prevenção e esses nos levam a saber
que somente há “boa qualidade de vida” quando se está sintonizado com as leis
divinas. Essas leis estando gravadas na consciência e, sendo a consciência a
nossa individualidade, a sintonia é a única possibilidade felicitadora. O
sentido hedonista material pode ser reinterpretado colocando-se sobre ele a
expressão do que podemos chamar hedonismo espiritual contido nos Evangelhos
assegurando que o esforço na direção do bem pode ter retornos “A dez, a trinta
ou acento por um”. A eugenia é, sem dúvida um bem desejável. Um dia a Terra será
um mundo de harmonia, de permuta espontânea entre o eco e o ântropo-sistema.
Haverá empatia de cada um diante dos outros. As doenças não serão necessárias e
qualquer deficiência física ou moral não existirá mais. Nosso planeta será
“Possuído pelos mansos”. Não é esse o ideal eugênico? Nessa perspectiva, a
Prevenção necrófila, além da covardia embutida no seu procedimento, é ineficaz
como acionadora do processo eugênico, tanto quanto é ineficaz em nível pessoal,
familiar e social, para a chamada plenitude da vida, tão deploravelmente
adulterada em nossos tempos, pois uma plenitude que utiliza a morte é um
lamentável e terrível engano.

O Semeador – marco/97.

(Jornal Mundo Espírita de Julho de 1997)

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