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Os Meninos no Farol

Enéas Canhadas

Estava parado no farol observando os meninos fazendo malabarismos com suas bolinhas de tênis. Alguns bons malabaristas, outros nem tanto. Pensei: “estão fazendo micagens” como um jeito diferente de pedir esmolas. Em seguida meus pensamentos me corrigiram: “não, são maneiras diferentes e até criativas de conseguir algum dinheiro” para sobreviverem. Meus pensamentos quiseram me corrigir novamente dizendo sobre as explorações que existem nessa realidade e outras coisas mais, quando um pensamento me esclareceu: “arranjaram um jeito de pedir com alguma dignidade”. E nesse pensamento me fixei.

Como estamos carecendo de dignidade! Enquanto poderíamos ter dignidade para suprir ou evitar carências, estamos carentes de alguma dignidade! Não sei dizer se desde a antiguidade ou desde que o homem pisou sobre a Terra em posição ereta ou até mesmo antes disso, mas com certeza, nos tempos atuais é uma de nossas maiores necessidades. Dignidade vem do latim “dignitate” e pode ser definida como honradez, honra, nobreza, decência, respeito a si próprio. Como o respeito ao próximo precisa de auto respeito, então o mandamento do Cristo ainda necessita de prática. O mandamento “amar ao próximo como a si mesmo” conclama a todos para o amor e o respeito aos semelhantes. Além disso, esse mandamento também cuida da ecologia do nosso planeta fornecendo a consciência do amor que cria e preserva o respeito a tudo que está fora de nós. Se formos rigorosos, ecologicamente falando, somos tão dependentes de uma árvore quanto somos do carinho e do cuidado que uma pessoa pode ter conosco e que podemos sentir pelos outros.

Gosto muito de provérbios que, em geral, traduzem de forma quase melodiosa os pensamentos humanos e certas verdades. Sobre a dignidade encontrei este: “Muitas vezes, a dignidade proíbe o que a lei permite”. Frente a cena que me levou a escrever este artigo, é bem verdade. A dignidade que existe ou deve existir dentro de nós, está em algum lugar, que não exatamente nas leis, especialmente as leis dos homens.  Se buscarmos na organização das sociedades e na existência dos grupos, vamos encontrar as raízes dos processos sociais em que o ser humano praticou e compreendeu, desde o início dos tempos, o que era honrar e ser honrado porque exatamente começou a sofrer na própria pele as conseqüências de ser desonrado ou desrespeitado.

Tenho visto documentários muito tristes e tocantes sobre os animais que são desrespeitados durante a vida, abandonados à sua própria sorte, como também os que são encontrados com profundas marcas de maus tratos, quando não mutilados por meros caprichos de alguns seres que quase não merecem ser chamados de humanos. Esses desumanos cometem atrocidades gratuitas e pervertidas com os nossos amigos de escala ainda anterior à hominal, barbáries que refletem a cegueira de vidas ainda em estado primitivo. Também entre os animais reside a qualidade advinda do princípio inteligente que busca naturalmente, ser um pouco melhor a cada dia. A vida humana possui uma espécie de termômetro que mede o grau em que a vida e os nossos semelhantes contribuem ecologicamente, para nos fazer sentir mais íntegros.  Bert Hellinger, o criador das Constelações Familiares nos ensina que o movimento do Espírito se dá pela prática do amor, que ele organizou didaticamente em ordens que têm que ser, necessariamente obedecidas, para que o amor dê certo, expressão que aliás, é o título de um dos seus livros (Para que o amor dê certo, Edit. Cultrix, São Paulo). Chegamos, pois facilmente, quero crer, ao consenso sobre a importância do amor para que a dignidade humana prevaleça. O pensador Andrè Comte-Sponville no seu livro Pequeno Tratado das Virtudes Humanas nos traz as seguintes ideias: “O dever é uma coerção (um “jugo”, diz Kant), o dever é uma tristeza, ao passo que o amor é uma espontaneidade alegre. “O que fazemos por coerção”, escreve Kant, “não fazemos por amor.” Isso se inverte: o que fazemos por amor não fazemos por coerção, nem, portanto, por dever”. Assim pensando não serão as leis que trarão a dignidade de volta, mas a dignidade enquanto uma geração do próprio Espírito humano deverá provocar transformações, primeiramente de nós mesmos e depois, conseqüentemente, na formulação das leis.

As ideias que não gritarem dentro da nossa consciência não se transformarão em leis. É a prática de hábitos e costumes que modificam o nosso cotidiano, até mesmo criando normas, regras e leis. Se o nosso modo de ser estiver preservado pelas garantias das circunstâncias e normas sociais, pelos amparos legais, subjugados por patrimônios econômicos e crenças motivadas por religiões e não pela religiosidade da nossa conexão espontânea e natural com o Caráter Divino, se assim forem essas garantias da dignidade humana, continuaremos a ser pobres.

Essa pobreza nos fará meninos descalços, vestindo roupas esfarrapadas, fazendo malabarismos nas esquinas da existência, esperando os trocados da consciência que haverá de clamar pela nutrição do amor para chegar à pratica do amor ao próximo tanto quanto possamos sentir amor por nós mesmos. Não será preciso mais, nem tampouco será suficiente menos.

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