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Pai Nosso

Pai Nosso

A oração dominical é sem dúvida, o mais perfeito modelo de prece que poderia
ser concebido. Concisa, simples e clara, “ela resume – como diz Allan Kardec –
todos os deveres do homem para com Deus, para consigo mesmo e para com o
próximo. Encerra uma profissão de fé, um ato de adoração e de submissão, o
pedido das coisas necessárias à vida e o princípio da caridade”.

Pena é que muita gente, ao recitá-la nos seus exercícios devocionais, não
procure compreender a profunda significação do seu contexto, nem se aperceba das
normas de bem viver que ela prescreve a todos.

Detenhamo-nos, pois, na análise de tão sublime oração, meditando um pouco
sobre cada uma das partes que a compõem.

“Pai-nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso nome”.

A noção que tenhamos da Divindade reflete-se, inevitavelmente, no nosso modo
de agir.

Nos primórdios da civilização, os homens faziam dos deuses um conceito mais
ou menos uniforme, tornando-os por potências iradas, às quais era preciso
agradar com a oferta de presentes, não só para desviar os dardos do seu furor,
como também para granjear-lhes os favores e, com a sua ajuda, conseguirem saúde,
bem-estar e prosperidade.

Tais oferendas, a princípio, consistiam em frutos; depois começaram a ser
oferecidos animais, que os próprios sacerdotes degolavam, sendo que entre muitos
povos se introduziu, por fim, o costume horrível de sacrificar criaturas
humanas, especialmente crianças e moças.

Abrimos o Velho Testamento e Deus que ali deparamos – Jeová, o Senhor dos
Exércitos, também se nos apresenta como um ser faccioso, violento, iníquo e
vingativo, eis que “escolhe para si um povo no meio das nações”, cumulando-o de
graças, enquanto aos demais só faz conhecer desgraças; que ordena as mais
cruentas matanças, inclusive de crianças e de animais; que aconselha pilhagens
dignas dos piores bandoleiros e ameaça com pragas repugnantes todos quantos lhe
não atendam às determinações.

Com tais idéias a respeito da Divindade, os homens de então não poderiam
mesmo ser melhores, e daí o darem vazão aos seus instintos brutais, serem
implacáveis nos seus ressentimentos e mostrarem-se impiedosos para com os
inimigos.

Um dia, porém o Cristo desce à Terra e nos fala de um Deus diferente. Um Deus
infinito nas Suas perfeições, cuja onisciência e onipotência se manifestam
através das leis imutáveis e sábias que regem a Criação; um Deus sem
favoritismos de espécie alguma: um Deus bastante inteligente para saber
corrigi-las e não para castigá-las; um Deus que não quer pereça uma só alma, mas
que todas se salvem e participem da Sua Glória; um Deus, enfim, a quem podemos
dirigir-nos confiadamente, chamando-o pelo doce nome de Pai.

Notemos, entretanto que, ao ensinar-nos a chamar-lhe Pai Nosso, Jesus deixa
claro ser Ele pai de toda a grande família humana, e não apenas de uns poucos
escolhidos.

Contrariamente, portanto, ao ensino de certas religiões, são filhos de Deus
todos os homens espalhados por todas as longitudes e latitudes do globo; de
todas as raças e civilizações; de todas as classes e de toda a fé; católicos e
protestantes, espíritas e budistas, muçulmanos e judeus, rosacrucianos e
fetichistas, e até os ateus, apesar de pecadores, apesar de transviados, porque
todos, absolutamente todos, são amados por Ele com igual e paternal solicitude e
hão de ser proclamados e salvos pelo divino pastor: Nosso Senhor Jesus-Cristo.

Por isso, ó Deus, porque sois todo Amor e Bondade, Justiça e Misericórdia,
seja o vosso santo nome bendito e louvado por toda a Terra, assim com por todo o
universo, nos astros mais remotos, nos espaços incomensuráveis, onde quer que a
vida que provém de vós se haja manifestado, pois não há quem não pressinta a
vossa existência e o fim ditoso para que nos criastes!

(De “O Sermão da Montanha”, de Rodolfo Calligaris)

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