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Preexistência do Espírito

Preexistência do Espírito

Têm-se desenvolvido, desde muito tempo, a idéia que o homem só tem uma vida,
quer dizer, só vive apenas uma vez. Não sabemos quando e como isso se iniciou,
presumimos que seja por causa da narrativa bíblica sobre a criação do homem,
onde se diz que Deus após ter modelado o barro dá a ele o sopro vital.

Até a pouco tempo atrás se pensava que o Espírito era ligado ao corpo das
crianças no exato momento em que o recém-nascido “via” a luz, quando saia do
ventre materno. Via está entre aspas, pois na verdade não via nada, pois nascia
de olhos fechados, diferente das crianças de hoje que já nascem de olhos
abertos. Ninguém se preocupava com a existência do espírito antes disso.

Mantendo essa visão, ou seja, de aceitarmos que o espírito é ligado ao corpo
no momento do nascimento, devemos convir que Deus estaria se subordinando aos
homens para a criação de Espíritos, pois somente após o clímax de se cumprir a
vontade de um casal de ter filhos, é que Deus poderia entrar com a criação do
Espírito.

O homem moderno, avançando em sua percepção da realidade espiritual, está
conseguindo perceber um pouco mais além do que os seus antepassados. Nos
consultórios médicos, especialmente os ginecológicos, as gestantes são
instruídas pelo seu facultativo a conversarem com os fetos muito antes do dia em
que eles irão ver a luz. No início mesmo da gestação já é passada essa
orientação. Isso tem contribuído sobremaneira para que os espíritos, em vias de
reencarnarem, sintam-se amados e desejados, o que promove uma vida de
relacionamento familiar mais harmonioso, notadamente entre pais e filhos.

Entretanto, ainda não se conseguiu desvendar o grande “mistério” de que,
muito antes da concepção, o espírito já existia. Estamos falando da
preexistência do Espírito, aceita por muitas filosofias religiosas, mas ainda
não incorporada às religiões cristãs tradicionais. Sabemos que as mudanças não
são fáceis, pois deixar valores antigos para absorver novos não é coisa tão
fácil assim, já que sempre nos agarramos às nossas convicções anteriores, pouco
nos importando se são verdadeiras ou não.

Podemos notar isso nos obstinados fariseus, que ficavam perplexos, diante dos
ensinamentos de Jesus, mas não abriam mão em seguir a Moisés, até que, num dado
momento, o Mestre desmascarando-os diz: “Não se coloca remendo de pano novo em
pano velho, nem vinho novo em odres velhos” (Mateus 9, 16-17).

Mas, por incrível que pareça, encontramos a percepção da preexistência até no
Antigo Testamento, escrito a aproximadamente mil e novecentos anos atrás. Como
exemplo, vejamos as seguintes passagens, onde claro fica essa questão:

1) Tobias 6, 18: Antes de se unir a ela, levantem-se os dois e rezem, pedindo
ao Senhor do céu que tenha misericórdia e proteja vocês. Não tenha medo. Ela foi
destinada a você desde a eternidade, e você é quem vai salvá-la.

Se a moça foi destinada a Tobias deste a eternidade, é porque ambos existiam
desde a eternidade. Por eternidade devemos entender um tempo muito longo, sem
que saibamos precisar a sua duração certa, já que de toda a eternidade somente
existe Deus.

2) Salmos 51, 7: Eis que eu nasci na culpa, e minha mãe já me concebeu
pecador.

Como alguém pode nascer pecador se não teve uma vida anterior onde teria
pecado? Não venham com essa ridícula afirmação de que nascemos em pecado
original. Temos dito que realmente ele é muito original só isso, mas não se
coaduna com a justiça divina, até mesmo porque também está escrito: “O filho
nunca será responsável pelo pecado do pai, nem o pai será culpado pelo pecado do
filho” (Ez 18, 20, ver tb Dt 24, 16).

3) Sabedoria 8, 19: Eu era um jovem de boas qualidades e tive a sorte de ter
uma boa alma, ou melhor, sendo bom, vim a um corpo sem mancha.

Aqui, além de estar bastante evidente a preexistência da alma, ainda
encontramos a questão do carma. Carma? Isso mesmo, já que o jovem veio num corpo
sem mancha porque era um espírito bom (boa alma). E para quem se apressar em
dizer que na Bíblia não existe esse pensamento, acrescentamos: “Se alguém ferir
o seu próximo, deverá ser feito para ele aquilo que ele fez para o outro:
fratura por fratura, olho por olho, dente por dente. A pessoa sofrerá o mesmo
dano que tiver causado a outro” (Lv 24, 20). Algumas vezes Jesus diz, ainda que
possamos entender como veladamente, sobre o carma, quando fala “a cada um
segundo suas obras” (Mt 16, 27), outras, mais preciso de modo a não deixar
dúvida, quando afirma a um homem, que esteve doente por 38 anos, ao encontrá-lo
no templo: “Você ficou curado. Não peque de novo, para que não lhe aconteça
alguma coisa pior” (Jo 5, 14). Para não ficar só nisso, vamos encontrar Paulo
dizendo: “cada um colherá aquilo que tiver semeado”, claramente está afirmando
essa lei divina inexorável que faz com que soframos o mesmo mal que fizermos os
outros sofrerem.

4) Jeremias 1, 4-5: Recebi a palavra de Javé que me dizia: “Antes de formar
você no ventre de sua mãe, eu o conheci; antes que você fosse dado à luz eu o
consagrei, para fazer de você profeta das nações”.

Se antes de formar no ventre da mãe Deus já o conhecia, é porque, não
tenhamos dúvida, que ele existia como Espírito antes do seu corpo ser formado.

Vejamos o que diz o teólogo e escritor José Reis Chaves, em “A Reencarnação
Segundo a Bíblia e a Ciência”, a respeito de Orígenes, considerado um dos pais
da Igreja Católica:

Em 543, Justiniano publicou um édito, em que expunha e condenava as
principais idéias de Orígenes, sendo uma delas a da preexistência.

Em seguida à publicação do citado édito, Justiniano determinou ao patriarca
Menos de Constantinopla que convocasse um sínodo, convidando os bispos para que
votassem em seu édito, condenando dez anátemas dele constantes e atribuídos a
Orígenes.

A principal cláusula ou anátema que nos interessa é a da condenação da
preexistência que, em síntese, é a seguinte: “Quem sustentar mítica crença na
preexistência da alma e a opinião, conseqüentemente estranha, de sua volta, seja
anátema”.

Então, podemos ver, que a questão da preexistência da alma foi abolida por
decreto, que, apesar de sua evidência bíblica, ainda teve o beneplácito dos
bispos católicos. São os que sempre se consideram os “donos da verdade” é que
buscam de todas as formas combater tudo que não vai ao encontro de suas próprias
idéias, pouco importando se estão com a razão ou não. O tempo e o progresso
inevitável do ser humano, que cada vez mais se torna exigente na questão da
razão e lógica, deverá fazer com que essa verdade seja restabelecida, mesmo que
isso vá contrariar a uns e outros.

Out/2002.

Bibliografia: “A Reencarnação Segundo a Bíblia e a Ciência”, José Reis
Chaves, Ed. Martin Claret, 5ª edição e “Bíblia Sagrada”, Edição Pastoral, Paulus,
43ª edição, 2001.

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