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Questão de palavras

Na introdução ao estudo da Doutrina Espírita, Allan Kardec, o mestre por
excelência, inicia a codificação das obras espíritas atento aos mínimos detalhes
e com a segurança dos grandes lexicólogos, examina a etimologia das palavras e
suas acepções e conclui:

“Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a
clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos
das mesmas palavras. Os vocábulos espiritual, espiritualista, têm acepção bem
definida. Dar-lhes outra, para aplicá-los à doutrina dos Espíritos, fora
multiplicar as causas já numerosas de anfibologia”.

Daí o Codificador Espírita, acrescenta advertindo:

“Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos, para indicar a
crença a que vimos de referir-nos (a Doutrina Espírita), os termos espírita e
espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso
mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao
vocábulo espiritualismo a acepção que lhe é própria”.

Apesar da advertência do mestre lionês, ainda são comuns os deslizes
cometidos por inúmeros espíritas, que desatentos ao vocabulário e impregnados
com o tradicionalismo religioso, deixam fluir em suas palavras os vícios de
linguajar espiritualizante caduco de outrora.

Temos um exemplo disso na palavra espiritual, pois, é comum ouvirmos nos
meios espíritas, as palavras corpo espiritual quando o correto seria
perispírito.

O insigne codificador espírita mostra as diferenças entre as palavras
espiritual e espírita, quando em “O Livro dos Espíritos” adverte: “Quem quer que
acredite haver em si alguma coisa a mais do que matéria, é espiritualista.” Mas
prudentemente acrescenta: “Não se segue daí, porém, que creia na existência dos
Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível”.

No vocabulário espírita, cap. XXXII de “O Livro dos Médiuns”, esclarece:

“Perispírito – (Do grego – peri – em torno). – Envoltório semi-material do
Espírito. Nos encarnados, serve de intermediário entre o Espírito e a matéria;
nos Espíritos errantes, constitui o corpo fluídico do Espírito.”

Quem desejar mais informações sobre o perispírito, deve consultar “O Livro
dos Espíritos” na Segunda parte, cap. 1, questão 93, 94 e 95, onde figura o
título “Perispírito”. Não há como errar!

Se adotarmos o corpo espiritual dos espiritualistas em breve estaremos
aceitando também, o corpo astral, o corpo mental, o duplo etéreo e uma
infinidade de palavras estranhas ao contexto espírita.

Diante do bom-senso kardequiano, resta-nos apenas como bons espíritas, seguir
a ortodoxia espírita empregando o vocabulário espírita porque “assim o exige a
clareza da linguagem”.

Se o espiritual tem relação com o espiritualismo e o espírita com o
Espiritismo só nos resta como bons espíritas empregarmos o vocabulário espírita,
para evitarmos “a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras.

(Publicado no CORREIO FRATERNO DO ABC, Ano XXXIV, Nº 375, Abril de 2002)

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