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Tolerar… Ou Ser Tolerado

Tolerar… Ou Ser Tolerado

Já para não referir as seitas milagreiras, por exemplo, que se regem pelo
apelo emocional, em que a razão sofre um demorado ocaso, veja-se algo mais
clássico: nessa altura do crime racista, no norte, numa aldeia para as bandas da
serra do Caramulo, o fanatismo religioso ficou à margem das notícias. Mas a
intolerância vertida em forma de violência, por parte de crentes da religião
tradicional, contra uma ali recém-instalada religião evangélica (minoritária,
claro) ocorreu e gerou vítimas. Houve ofensas corporais, contando-se entre os
atingidos uma criança. A queixa infelizmente não foi apresentada, pois as
vítimas, na certa por entenderem que era assim que deviam vivenciar a sua
convicção, acharam preferível não o fazer.

Espíritos tolerantes

Quando ponderávamos sobre o gosto de beneficiar da tolerância alheia, alguém
nos disse que para uma criatura ter necessidade de ser tolerada basta ser nem
mais nem menos do que parvo. Para tolerar, é preciso ter algo mais: alguma
capacidade de dar. De dar na ciência e na arte de se ser tolerante.

Está-se longe de fazer a apologia da manutenção de situações injustas que nos
fazem sofrer ou a outrem.

Mas, a nível familiar, antes de clamar pela tolerância alheia mais importante
talvez seja aferir até que ponto temos sido tolerantes. Por que não passar a ter
isso presente? Uma forma de semear este propósito é afirmar no imo do ser: «Dia
após dia, eu sou mais tolerante!». É programação positiva, que serve mesmo para
aqueles que se consideram tolerantes.

Ano Internacional

A nomeação de 1995 como Ano Internacional da Tolerância deveria servir para
se reflectir na prática dessa virtude. Na verdade, em nós próprios temos feito
algo nesse sentido? O mais provável é que, se nos examinarmos bem, chegamos à
conclusão de que sempre poderemos ser mais tolerantes do que temos sido.

Que o processo de tolerar tenha como efeito real a paz e a justiça.

É muito fácil ser tolerante com quem não nos pisa os calos… Não escasseiam
oportunidades. Começando por aí, diante do ensejo de tolerar quem nos incomoda,
não nos perturbemos e exerçamos esse privilégio: tolerar. É forma de guardar a
nossa paz. O caminho vai por aí.

Mas tolerar certas imposições pode ser a aceitação de vida interior menor,
que poderia crescer de uma forma bem mais positiva. Há coisas que socialmente
não são de tolerar, como a violação dos direitos humanos ou a destruição do
planeta. Aqui, porém, talvez já não se trate de tolerância, mas de outras coisas
diferentes. Há atitudes que podem ser confundidas com tolerância. Se esta visa o
interesse geral, o bem comum, há comportamentos que, vestidos de pele de
cordeiro, fazem o oposto. É o caso da omissão, do comodismo, da pactuação ou do
estímulo à asneira evidente. Contudo, isso não é tolerar: o tolerante não é, de
certeza, nem inconsciente nem desinteressado. O poder de optar esteve sempre nas
nossas mãos.

Tolerar é Diferente

Não confundir tolerância com:

Comodismo e desleixo – atitude de quem não quer saber de nada que não seja
andar ao sabor da corrente, entendendo que o leme de suas opções é mero artigo
decorativo.

Preguiça e inconsciência – atitude de quem não está «para se chatear», porque
isso dá trabalho e às vezes até exige alguma abnegação. Uma constante carência
de perceber o que é essa coisa a que chamam responsabilidade.

Ausência e omissão – carência de participação por timidez ou receio de
reacções desfavoráveis que surgiriam se dissesse o que pensa, sobretudo quando
há abertura para o fazer. No fundo e na superfície, sempre, participação igual a
zero.

Conluio e pactuação – aguenta-se isso para se conseguir aquilo, mesmo que não
haja nenhuma afinidade de perspectiva, se bem que se partilhem interesses mais
ou menos casuais, com quem se pactua.

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