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Um Visitante no Natal

Um Visitante no Natal

Um extra-terrestre que descesse em uma de nossas cidades no Natal,
provavelmente se questionaria sobre a identidade do velhinho simpático, de
roupas vermelhas, que parece onipresente em todas as manifestações festivas
desta época.

Nosso extra-terrestre talvez se espantasse com a extrema valorização dos
festejos, centrados em guloseimas e presentes fora do alcance da maioria dos
habitantes do planeta. Com grande certeza perceberia os lampejos de uma
compaixão pelos mais desfavorecidos, quase que apagada entre o anseio de parecer
mais feliz, usando o poder de compra e a capacidade financeira de reunir um
grande número de amigos. Mas acredito que dificilmente ele perceberia que nesta
compaixão se encontra a verdadeira razão da data festiva.

A comemoração, que rememora o nascimento de um homem extraordinário – que
mudou os rumos da civilização ensinando o amor ao próximo como lei básica da
criação – tão desvirtuada está de suas finalidades que o nome dele é pouco
citado e muito menos são enfatizados seus ensinamentos. Um ou outro presépio,
nos lembram dele e que ele nasceu tão pobre que seu primeiro berço foi uma
manjedoura em um estábulo. Se teve presentes trazidos por viajantes do oriente
distante, teve também, em tenra idade, que fugir do ódio de um tirano
ensandecido, tornando-se refugiado, como milhões de outras crianças pobres em
nossos dias.

Por toda sua vida o vemos exaltando os bens do coração e do espírito,
ensinando a solidariedade e o desapego. Mesmo no momento mais poético de sua
pregação, quando sobre o monte se dirigiu a multidão, são as bem-aventuranças
aos pobres de espírito, aos sofredores e aos famintos de justiça que marcam para
sempre sua mensagem. Nunca mais nenhuma instituição humana poderia ignorar os
desvalidos e os pequeninos de toda a sorte, para os quais o Reino dos Céus se
abriu.

No “Pai Nosso”, uma nova relação entre o homem e Deus inaugura-se, não mais o
criador possessivo e ciumento, não mais o senhor dos exércitos a exigir
sacrifícios, não mais o juiz severo, nem mesmo o carrasco impiedoso, mas sim o
Pai amoroso e sábio. Mesmo nesta prece, proferida diante dos injustiçados do
mundo ensinando-os como se dirigir ao Pai eterno, os pedidos feitos a Causa
Primaria de todas as coisas são singelos. Jesus não enumera riquezas
imensuráveis, nem prazeres mundanos, nem mesmo honrarias ou distinções, pede
apenas o pão nosso de cada dia e o perdão de nossas dividas.

È assim que nosso hipotético extra-terrestre, nada ouvindo destas coisas,
reportaria no seu planeta de origem, que visitou estranho recanto do Universo,
onde seus habitantes adoram um velhinho simpático que distribui presentes e se
veste com pesadas roupas de inverno, enquanto batalham furiosamente para buscar
uma felicidade transitória que mal dura a abertura das embalagens.

Estranho recanto do Universo onde se canta em glória ao rei menino e se
esquece que esse menino cresceu e respondendo a seus perseguidores disse que
“meu reino ainda não é deste mundo”.

Deus permita que a Boa Nova de Jesus de Nazaré, tão esquecida em nosso mundo,
jamais se perca de todo. Que no progresso do ser e da humanidade, finalmente
venhamos a compreendê-la verdadeiramente e, como crianças que deixam as ilusões
da infância e descobrem que o Papai Noel não existe, um dia cheguemos a ver no
Natal não o pobre peru ou a arvore repleta de presentes, mas a lembrança de que
o Reino de Deus está dentro de nós e que só seremos verdadeiramente felizes ao
encontrá-lo.

“Glória a Deus nas alturas,
Paz na Terra,
Boa Vontade para com os homens”.

Feliz Natal,

(Publicado no Boletim GEAE Número 447 de 24 de dezembro de 2002 )

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