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A Ciência Espírita ou do Espírito

A Ciência Espírita ou do Espírito

Nota prévia do Autor: Neste artigo resumimos o que nos parece uma situação de
fato, relativa ao importante aspecto científico da Doutrina. Estaremos errado?
Fomos pessimista? Agradecemos, por antecipação, os esclarecimentos que possamos
provocar, por parte dos mais capazes na apreciação do assunto.

  1. Allan Kardec e a definição de Espiritismo, sob o aspecto científico.
    Depois de Kardec.
  2. A Ciência e seus métodos.
    • Que é Ciência? Fato, observação, experimentação, hipótese, leis.
    • O fenômeno físico e o fenômeno espírita (mensuração diferente).
    • Mudamos ou muda a Ciência? O dogma científico e seus prejuízos.
    • Os preconceitos.
  3. Crítica aos espíritas.
    • Não há pesquisa; a experimentação parou no tempo.
    • Carência de recursos e estudos apropriados.
    • Crookes examinou os fenômenos, não formulou leis.
    • Bozzano e seus esforços nesse sentido.
    • Zollner e suas teorias.
    • O apelo de Emmanuel.
  4. A contribuição de Richet. A criptestesia espíritica.
    • A Parapsicologia: de Rhine até hoje.
    • Os físicos e sua contribuição ao estudo dos fenômenos extra-físicos
      (anímicos).
  5. Conclusões.

1. Allan Kardec e a definição do Espiritismo, sob o aspecto científico.

Allan Kardec assim definiu o Espiritismo:

“É uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem
como de suas relações com o mundo corporal”. – O QUE É O ESPIRITISMO.

E disse mais:

“Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma maneira
que as ciências positivas, isto é, aplica o método experimental”. A GÊNESE (Cap.
I, 14)

O estudo dos fenômenos espíritas e a formulação das leis que os regem
constituem, pois, uma ciência, de observação, progressiva, a Ciência espírita.

Depois de Kardec.

Depois de Kardec, o Codificador, vultos notáveis do Espiritismo reafirmaram o
caráter científico da Doutrina Espírita, expressando de modo positivo seu
pensamento:

“O Espiritismo deixa de parte as teorias nebulosas, desprende-se dos dogmas e
das superstições e vai apoiar-se nas base inabalável da observação científica” –
Gabriel Delanne, em O ESPIRITISMO PERANTE A CIÊNCIA.

“O Espiritismo é uma ciência cujo fim é a demonstração experimental da
existência da alma e sua imortalidade, por meio de comunicações com aqueles aos
quais impropriamente se têm chamado mortos” – Gabriel Delanne, em O FENÔMENO
ESPÍRITA.

“A Ciência Psíquica visa um fim, estuda uma ordem de fatos, emprega métodos,
processos e instrumentos exclusivamente seus: cria teorias, estatui princípios,
estabelece leis, satisfaz assim e preenche todos os requisitos exigidos pelos
foros científicos” – A. Pinheiros Guedes, em CIÊNCIA ESPÍRITA.

“Os fenômenos espíritas estão tão bem comprovados, como os fatos de todas as
outras ciências” – Russel Wallace.

A expressão “O Espiritismo será científico ou não subsistirá”, atribuída ao
Codificador e citada por confrades, em seus escritos, não é encontrada em
nenhuma obra de Allan Kardec.

‘… esta é uma ciência positiva, baseada no estudo experimental dos
fenômenos psíquicos e nos ensinamentos dos espíritos elevados” – Gustavo Geley,
em RESUMO DA DOUTRINA ESPÍRITA.

Há uma teoria espírita, documentada na prática mediúnica, acerca da
sobrevivência do Espírito e de suas relações com o mundo corporal, material ou
físico, mas ainda não comprovada pela Ciência.

Naturalmente, não por culpa dos espíritas, que cooperariam com entusiasmo, se
a Ciência se decidisse a pesquisar os fenômenos mediúnicos, atendendo às suas
peculiaridades e empregando, nas pesquisas, os métodos apropriados.

2. A Ciência e seus métodos.

Que é Ciência? Fato, observação, experimentação, hipóteses, leis. O
fenômeno físico e o fenômeno espírita (mensuração diferente). Mudam os fatos ou
muda a Ciência? O dogma científico e seus prejuízos. Preconceitos.

Vimos que, seja o Codificador, sejam os vultos eminentes da Doutrina, que o
precederam, todos atestam, sem discrepância, o caráter científico do
Espiritismo.

– Como a Ciência encara o Espiritismo científico?

Podemos dizer que a Ciência é a “soma de conhecimentos certos, ordenados em
harmoniosa síntese lógica, reduzidos a um corpo de doutrina! (2) –
Conhecimentos certos
porque correspondem a uma realidade objetiva, à qual
chegamos pela aplicação de métodos de investigação adequados; síntese lógica,
isto é, são coerentes, sem contradição estrutural; corpo de doutrina, ou
sejam conjunto de princípios.

O material da Ciência são todos os fenômenos naturais, porque ela se apoia em
fatos. Stuart Mill já dizia que a linguagem da Ciência deve ser: “Isto é ou não
é; isto se dá ou não se dá”.

A Ciência pergunta “como?” e busca conhecer os fenômenos e descobrir as leis
que os regem.

Karl Pearson, em sua GRAMÁTICA DA CIÊNCIA, ensina que “O método científico
caracteriza-se pelo seguinte:

  1. cuidadosa e acurada classificação, de fatos e observação de sua correlação
    e seqüência;
  2. descobrimento das leis científicas com o auxilio da imaginação criadora;
  3. auto-crítica e pedra de toque final de validade para todos os espíritos
    normalmente constituídos”.

O método científico (indutivo) de Galileu e Newton, é aquele que se acumulam
dados experimentais (Bacon), formulam-se hipóteses de trabalho, seguidas de
rigorosa experimentação (cartesianismo), para que as teorias se ajustem aos
fatos e não vice-versa.

O fim primário da Ciência não é explicar nem indagar o porquê das coisas, mas
afirmar: “isto resulta daquilo”.

Temos, desdobramento, a observação de uma ou várias coisas (fenômenos,
fatos); a formulação da hipótese, uma explicação provisória; a
experimentação,
ou repetição do fenômeno para testar a hipótese; a
indução
, ou seja, a extensão do nexo aos vários casos idênticos; lei,
que contém os princípios, e a teoria, que explica o como, não o
porquê
, que este incumbe à filosofia.

Entretanto, os postulados da Ciência estão sempre a mudar, pela ocorrência de
novas descobertas. Ciência é, pois, conhecimento trabalhado, corrigido e sempre
acrescido, porque ela é progressiva.

O caráter positivo da Ciência obriga-a ao exame frio dos fatos. O próprio
Kardec observou: “Desde que a Ciência saída da observação material dos fatos, em
se tratando de os apreciar e explicar, o campo está aberto às conjeturas” – O
LIVRO DOS ESPÍRITOS (Introdução).

(1) Há mesmo alguns confrades, que numa evidente falta de visão global da
Doutrina, afirmam ser o Espiritismo pura e simplesmente Ciência.

(2) Ver INTRODUÇÃO À FILOSOFIA, do Pe. Francisco Leme Lopes, AGIR Editora.

A Ciência, emancipada da fé, organizou seus processos de trabalho, os seus
métodos e suas regras, como meio de encontrar a verdade. Assim, observa os
fenômenos, formula hipóteses para explicá-los, repete experiências para
confirmar as hipóteses, que podem sofrer adiamento, ser abandonadas ou
transformadas em lei. Um dia, esta pode ainda ser substituía.

A Ciência assinala a dificuldade da experimentação nos fenômenos psi,
cuja repetividade é difícil; com relação aos fatos espíritas, não os admite de
maneira alguma. Alguns cientistas isolados, de alto gabarito intelectual,
entretanto, deles têm tratado, como sabemos.

Há manifesta animosidade com relação à explicação desses fatos pelo
Espiritismo. Mas é preciso compreender até certo ponto a posição da Ciência,
acostumada a raciocinar em termos de leis físicas e não se revelações.

Aliás é preciso convir que há idéias que como que surgem antes do tempo, (a
teoria atômica, de Demócrito, por exemplo), e só mais tarde se cristalizam e
entram para o rol dos fatos consumados. Pelo menos, para a maioria das criaturas
ou para grupos específicos, menos receptivos. Nem sempre o Espírito encarnado se
apercebe, no tempo, da magnitude de um fato ou ocorrência, mas sempre realiza em
outra encarnação aquilo que devia fazer numa precedente, omitindo-se, no
entanto.

Assim se torna mais fácil compreender porque a Ciência só pode aceitar
explicação quando cientificamente verificada; só pode falar do que conhece
objetivamente. Por isso, não constitui prova para a Ciência as chamadas
provas anedóticas
(2), impossíveis de verificação pelo cientista.

Na verdade, porém, com relação aos fatos espíritas, fatos também
naturais, a Ciência se mostra de uma relutância a toda prova, que nada a
dignifica. Nega-se sistematicamente e de pronto.

UM autor espírita (3) já escreveu que os fenômenos mediúnicos não são
pesquisados ou são mesmo negados:

  1. pela imaturidade dos cientistas, (espiritual, naturalmente);
  2. pelo atraso das sociedades científicas;
  3. pelo medo do ridículo e da verdade.

Essa atitude vem de longe, como se infere da história da Ciência e um pequeno
exemplo é suficiente para caracterizar.

(1) A esfera da Ciência é a dos fenômenos demonstráveis. Alega ela, assim, a
dificuldade de repetição do fenômeno espírita, esquecida de que, para sua
ocorrência, exigem-se condições especiais, mas não impossíveis, eis que decorrem
de três vontades independentes: a do médium ou intermediário, a do pesquisador
e, sobretudo a do Espírito, nem sempre à nossa disposição. Há que considerar,
também, condições de ordem material e sobretudo espiritual, que permitam a
eclosão do fenômeno. Não se pode improvisar a experimentação espirítica.

(2) O material anedótico constitui experiências em primeira mão,
relatadas por pessoas sinceras, de espírito crítico, mas não comprovadas;
relatos autobiográficos sujeitos à mesma objeção; coleção de casos documentados,
investigados por pessoas qualificadas (cientistas, escritores, professores), de
que é exemplo PHANTOMS OF THE LIVING, editado por Myers e outros.

(3) Dr. Décio Rufino de Oliveira, em FENÔMENOS PARAPSICOLÓGICOS E ENERGIA
CONSCIENTE.

o preconceito científico:

“… na Associação Britânica para o Progresso da Ciência, em 1876,
ridicularizaram-lhe francamente o trabalho e recusaram-se a publicá-los nos
Procedings
da Associação… por parecerem absolutamente inacreditáveis aos
cientistas os fatos que Barret relatava” – J. B. Rhine, em NOVAS FRONTEIRAS DA
MENTE.

Nesse ridículo de classificarem os fenômenos de impossíveis ainda incorrem os
cientistas de hoje: “Considero a PES (Percepção Extra Sensorial) um assunto
intelectualmente desconfortável que chega a ser quase penoso”- Warren Weaver,
matemático (citado por Arthur Koestler, em AS RAZÕES DA COINCIDÊNCIA).

Alias, o grande Helhholtz (citado por Flournoy) disse que nem o testemunho de
todos os membros da Sociedade Real, nem a evidência de seus próprios sentidos
poderiam convencer sequer da transmissão de pensamento, impossível que era esse
fenômeno, como julgava.

Gustavo Geley, o eminente pesquisador dos fenômenos psíquicos, adverte que os
sábios que se dedicam ao estudo desses fenômenos não se preparam devidamente
para seu exame, como o fazem com os fenômenos físicos, motivo porque não
conseguem realizá-los a seu gosto.

3. Crítica aos espíritas.

Não há pesquisa; a experimentação parou no tempo. Carência de recursos
para estudos especializados. Crookes examinou os fenômenos, não formulou as
leis. Bozzano e seus esforços nesse sentido. Zollner e suas teorias. O apelo de
Emmanuel

Na verdade, os conceitos emitidos e episódios narrados pelos espíritas,
quando defendem o caráter científico do Espiritismo, não atendem, sob o ponto de
vista da Ciência, às exigências mínimas da observação e experimentação, que
caracterizam a pesquisa, o método indutivo, a construção cartesiana.

Critica-se a Ciência materialista por se ater ao exame dos fenômenos físicos;
no entanto, isso é natural, porque os problemas do Espírito sempre cederam lugar
aos episódios, mais prosaicos, da vida terrena, concretos e contundentes.

Não é sem razão que James B. Corrant, em sua obra COMO COMPREENDER A CIÊNCIA,
define-a como “a porção de conhecimento acumulativo em termos de desenvolvimento
histórico”, assinalando que os velhos conceitos arraigados podem ser mantidos, a
despeito de alegação de fatos em contrário, que são prejudicados em sua
evidência, pois o descobrimento científico tem de corresponder à época. Assim, o
conceito do flogístico, falsa idéia da combustão, que tanto entusiasmou
os cientistas, dificultou a aceitação da verdade, revelada por Lavoisier.

Na pesquisa dos fenômenos psíquicos há, apenas, em verdade, alguns pioneiros,
assim mesmo quanto aos fenômenos parapsicológicos ou anímicos; relativamente aos
espíritas, nem mesmo os seus adeptos mais conscientes se tem dedicado a sua
pesquisa uniforme e correta.

Parece que parou no tempo a experimentação espirítica, quando na própria obra
do Codificador muitas proposições verdadeiras foram lançadas, desafiando o
estudo dirigido de homens inteligentes, como, por exemplo, a revelação da
matéria cósmica primitiva
, hoje aceita pela própria Ciência, que a considera
formada por partículas elementares e que lhe descobre, a cada dia, novos
aspectos.

Hernani Guimarães Andrade, esforçado pesquisador psíquico, não aceita o
unilateralismo materialista, que não leva em consideração a outra metade da
realidade (ou a única, talvez), o Espírito, mas destaca o progresso por ele
proporcionado, pois.

“Em rigor científico eliminou muita crendice, (2), muita superstição e muita
imprecisão reinante na interpretação dos fenômenos da Natureza. Em sua benéfica
influência saneadora reduziu consideravelmente as indevidas intromissões
religiosas, nas questões de alçada exclusiva da Ciência”.

(1) Autor de A TEORIA CORPUSCULAR DO ESPÍRITO E NOVOS RUMOS À EXPERIMENTAÇÃO
ESPIRÍTICA.

(2) Sabemos que, em muitos espíritas, apesar de todo o esclarecimento
doutrinário à sua disposição, prevalecem ainda os sinais de velhos e retrógrados
cultos e religiões.

Na verdade, os grandes cientistas que se ocuparam dos fatos espíritas
provaram-nos, mas não estabeleceram as leis que os regem. Citamos, de passagem:

Willian Crookes, sábio inglês e pesquisador de grande acuidade, realizou
durante os anos de 1870 a 1873, experiências, que se tornaram clássicas, com a
médium extraordinária que foi Florence Cook; as mais completas do gênero,
demonstraram à sociedade que os fantasmas voltam e se tornam visíveis, tangíveis
e examináveis, de modo a não deixar dúvidas quanto à imortalidade do Espírito e
sua possibilidade de comunicação com os vivos. (1) O Espírito Katie King deu a
Crookes todas as oportunidades de exame, sério e cercado de todas as cautelas,
de comprovação de sua imortalidade, mediante métodos rigorosamente científicos.

Frederico Zollner, notável físico alemão, utilizou-se, em 1877, de outro
grande médium do passado, Henry Slade e, agindo como verdadeiro homem de
ciência, que era, conseguiu extraordinários fenômenos de materialização (hoje se
advoga o termo ectoplasmia), de transporte, de levitação e de escrita direta.
Para explicar fenômenos de penetração da matéria pela matéria, imaginou uma
quarta dimensão
, característica dos seres que habitam o mundo invisível, ou
dos Espíritos.

Willian Crawford é outro nome da Ciência, professor do Instituto Técnico e da
Universidade de Belfast, que a história das pesquisas psíquicas apontará, um
dia, como dos seus mais destacados e competentes cultores. A levitação de
objetos foi estudada por ele com extremos cuidados e, graças aos componentes do
“Círculo Goligher”, grupo de médiuns de que se destacava a senhorita Kathlen
Goligher, pôde comprovar a formação de uma alavanca formada por ectoplasma –
o cantilever
, de que se valeriam os Espíritos para fazer levitarem objetos
pesados (mesas etc.). (3)

Depois de estafantes experiências realizadas entre 1916 e 1920, Crawford, diz
René Sudre, “suicidou-se no dia 30 de julho de 1920, durante um acesso de febre
cerebral, devido ao esgotamento profissional e às condições criadas pela
guerra”. (4).

Terminamos esta ligeira e incompleta citação de sábios, que se ocuparam com
os fenômenos espíritas pelo nome glorioso de Ernesto Bozzano, em cuja
autobiografia confessa: “Nunca fiz outra coisa senão estudar.”

Bozzano trabalhou, como sabemos, com a grande Eusápia Paladino, a
extraordinária médium italiana, que lhe proporcionou a observação de numerosos
fenômenos de efeitos físicos. É inestimável a contribuição de Ernesto Bozzano ao
estudo da Ciência espírita. São numerosas as obras, todas esplêndidas, que
escreveu, a respeito, muitas traduzidas para o Português: FENÔMENOS DE
TRANSPORTE, A CRISE DA MORTE, FENÔMENOS PSÍQUICOS, PENSAMENTO E VONTADE, ENIGMAS
DA PSICOMETRIA, XENOGLOSSIA, ANIMISMO OU ESPIRITISMO?, METAPSÍQUICA HUMANA,
COMUNICAÇÃO MEDIÚNICAS ENTRE VIVOS, MATERIALIZAÇÕES DE ESPÍRITOS etc.

(1) FATOS ESPÍRITAS, editado pela FEB

(2) PROVAS CIENTÍFICAS DA SOBREVIVÊNCIA, Edicel, SP

(3) MECÂNICA PÍQUICA, Lake, SP

(4) V. Introdução, de MECÂNICA PSÍQUICA

O que desejamos, porém, destacar nesta sumária exposição, é o esforço do
Professor Ernesto Bozzano no sentido de estabelecer princípios e leis capazes de
explicar os fenômenos que observava e estudava, esforço tanto mais louvável quão
mais difíceis eram as condições de pesquisa na sua época, comparada com a atual,
ainda assim praticamente fechada aos cientistas espiritualistas.

Sempre defendendo a hipótese espírita para explicação dos fenômenos, ele
procurava também ilações, conclusões, que a observação e a experimentação possam
trazer para dar o necessário cunho de veracidade às manifestações. Contesta, em
termos de ciência, a teoria da quarta dimensão, do Prof. Zollner,
contrapondo-a à da passagem da matéria pela matéria, que julga ser a
verdadeira. (1).

As pesquisas devem continuar, a todo custo e a contribuição dos espíritas,
com a necessária capacitação, é da maior valia.

Terminemos este capítulo, com as palavras, como sempre sensatas e superiores,
de Emmanuel:

“A Ciência investiga, a Religião crê. Se não é justo que a Ciência imponha
diretrizes à Religião, incompatíveis com as suas necessidades de sentimento, não
é razoável que a Religião obrigue a Ciência à adoção de normas inconciliáveis
com as suas exigências do raciocínio” – SEGUE-ME, obra psicografada por F.
Cândido Xavier (Editora O CLARIM). Assim, ainda nas palavras de Emmanuel. (2).

“… necessitamos de operar ativamente para que a Ciência descubra, nos
próprios planos físicos, as afirmações da espiritualidade”.

Do contrário, não nos tomarão a sério.

(1) Sugestivo é o episódio da pirite, que o Espírito desmaterializou,
transportou para a sala de reunião, mas não pôde tornar material, de novo, ou
melhor, reintegrar as partículas caindo a pirite, em forma de pó finíssimo,
sobre os presentes. V. FENÔMENOS DE TRANSPORTE, Edição Calvário

(2) “EMMANUEL”, psicografia de F. C. Xavier, 7ª edição FEB, pág. 180.

4. A contribuição de Richet.

A “criptestesia espíritica”, A Parapsicologia, de Rhine até hoje.

Os físicos e sua contribuição ao estudo dos fenômenos extra-físicos
(anímicos).

Charles Richet (1) dedicou muitas das páginas de seu alentado TRATADO DE
METAPSIQUICA ao estudo do que ele chamou de criptestesia espíritica, sem
no entanto perder a oportunidade de sempre se expressar mordazmente com relação
ao Espiritismo e aos seus adeptos:

“Os espíritas receberam o meu TRATADO de METAPSIQUICA com grande frieza.
Compreendo o seu estado de espírito. Em vez de aceitar a sua teoria ingênua e
frágil…”
– Prefacio da 2ª edição portuguesa (O grifo é nosso).

“Os espíritas quiseram misturar a ciência com a religião, o que redundou em
grande detrimento para a ciência” – pág. 32.

“É um erro bem grave construir uma doutrina com a palavra dos tais espíritos,
que são pobres espíritos” – pág. 54.

“Se bem que a criptestesia, em todas essas experiências da Sra. Piper (2),
seja absolutamente e irrepreensivelmente demonstrada, a sobrevivência, na
realidade, não o é”.- página 207 (Grifamos).

É verdade que incluiu, nos períodos em que dividiu e classificou os
acontecimentos e os fatos do Espírito e suas descobertas, o período
espirítico
, (das irmãs Fox a Willian Crookes) e o científico 9que
começa com o próprio Crookes). Suas conclusões com relação à criptestesia
experimental
(ou espírita) são desanimadoras, entretanto, pois, quanto aos
fenômenos observados, afirma que, neles, “…é pouco racional fazer intervir os
mortos”- pág. 307.

E prossegue:

“Quaisquer que sejam as surpreendentes respostas de George Pelham (3), a
hipóteses de sua sobrevivência é muito frágil” – pág. 316.

“Pois bem! A doutrina de sobrevivência parece-me cheia de impossibilidades,
enquanto a outra hipótese, a da “criptestesia intensa é (relativamente) tão
fácil de admitir, que não hesito entre as duas” – pág. 317.

“Um dia virá, talvez, quando elas encontrarão alguma explicação, mas
provisoriamente não iremos até a hipótese de uma sobrevivência, absolutamente
indemonstrada e quase indemonstrável” – pág. 325

“A criptestesia, faculdade extraordinária, supranormal, de conhecimentos, é
um fato. A sobrevivência da consciência dos mortos não é senão uma hipótese
– pág. 327 (Grifamos).

Apesar de em sua obre TRATADO DE METAPSIQUICA negar autonomia aos fenômenos
mediúnicos e mesmo classificar como indemonstrada e indemonstrável
a sobrevivência do Espírito, Richet é um dos nomes imortais da pesquisa psiquica
e, em carta que, em 1936 escreveu a Bozzano, rendeu-se à evidência da verdade
espírita.

(1) Eminente fisiologista francês, nascido em 1850, dedicou-se às pesquisas
psíquicas e nesse ramo deixou obras notáveis, como o TRATADO DE METAPSÍQUICA, O
SEXTO SENTIDO, A GRANDE ESPERANÇA.

(2) Leonora E. de Piper, médium norte-americana, desencarnada em 1950,
realizou inúmeras sessões de identificação de espíritos, com Hodgson,
Lodge, etc.

(3) Jovem advogado e escritor, desencarnado em 1882, de violenta queda, que,
através de Madame Piper deu maravilhosas provas de sua identidade.

A Parapsicologia, de Rhine até hoje.

A Parapsicologia, ao contrário da Metapsíquica, que admitia uma
criptestesia espíritica,
rol de fatos mediúnicos, cuida apenas de fenômenos
anímicos e tem despertado maior interesse, senão da própria Ciência, pelo menos
de muitos cientistas famosos. Já é bastante, pois que admite a existência do
não-físico, da mente, pois, de fato, uma ciência mecanicista, que não quer ouvir
falar de princípio espiritual, dificilmente cederá, para aceitar as verdades da
Doutrina Espírita, concernentes à sobrevivência da alma e sua comunicação após
morte.

A ciência pontificou, considerando a mente entrosada nos órgãos sensoriais e
estes, por sua vez, no mecanismo orgânico, que “nada penetra na mente a não ser
através dos sentidos”, ou melhor, tudo quanto a mente registra já foi registrado
pelos sentidos. Entretanto, aceitando a Parapsicologia, aceita a existência de
fenômenos extra-físicos, como a telepatia, a clarividência, a cognição e
mesmo a psicocinesia, o que põe por terra o referido postulado.

De qualquer forma a discussão foi iniciada e continuam, pelo menos
extra-oficialmente, as experiências, devendo-se ao prof. Joseph Bankes Rhine e à
sua equipe, o esforço valioso para estabelecer uma investigação em termos de
método e rigor científicos (o estatístico, com base no cálculo das
probabilidades etc.) fenômenos paranormais.

Há sempre um pioneiro, que desbrava o terreno e encoraja, enfrentando toda
sorte de entraves. Rhine enfrentou o enfrenta a incompreensão de seus colegas e
paga seu tributo ao progresso, pois, segundo o matemático Warren Weaver, a PES é
um desconforto intelectual quase penoso.

Artigo publicado em ESTUDOS PSIQUICOS (outubro de 1967) e assinado por
Demócrito, na seção Cantinho da Ciência, diz que a PARAPSICOLOGIA é importante
marco no estudo e pesquisa da alma e de seus fenômenos grandiosos, porque:

  1. fez-se ouvir e acertar no mundo da Ciência;
  2. representa a base sobre que vão assentar as futuras investigações
    científicas;
  3. marca a abertura de um caminho revolucionário em Ciência, pois o homem
    pode aperceber-se da realidade sem ser pelos sentidos físicos conhecidos, de
    que os fenômenos se dão independentemente do tempo e do espaço e ainda de que
    a psique pode influenciar diretamente a matéria e também que os fenômenos
    psíquicos não obedecem às leis físicas.

Aliás, parece que hoje a tendência será para não considerar-se com muito
rigor, mesmo em sentido pejorativo, a palavra matéria, em contraposição
ao Espírito, pois já se fala em matéria psi… Não seria mais
certo matéria física, matéria fluídica, matéria astral, matéria mental, matéria
elementar? (1).

Obras recentes (2), relatam experiências notáveis realizadas nos países da
órbita comunista, que hoje intensificam as pesquisas parapsicológicas,
procurando, todavia, lhes dar sempre um cunho materialista ao contrário dos
pesquisadores norte-americanos, que lhes reconhece até certo ponto o caráter
extra-físico.

Os livros em exame nos falam de grandes pesquisadores como Eduardo Naumov,
biologista russo, sem esquecer o pioneiro Leonid Vasiliev e de sensitivos
extraordinários, como Karl Nikolaiev e Yuri Kamensky, telepatas, predecessores
do famoso Wolf Messing, que esteve no Brasil. Testes clássicos foram realizados,
comprovando o extraordinário poder do pensamento demonstrado em fenômenos de PK
(psicocinesia), efetuados com a sensitiva Nelya Mikhailova (3). Entretanto,
afiançam os russos que o fenômeno é puramente físico-fisiológico. Rosa Kuleshova
vê as cores com as pontas dos dedos, em fenômeno crismado como “visão
dermo-ótica”. As experiências comprovaram velhas afirmações esotéricas, sobre as
cores, que são frias ou quentes, macia ou ásperas,
pegajosas
ou escorregadias etc. O “efeito Kirlian”, que veio
confirmar, cientificamente, ensinos espiritualistas antigos, e minuciosamente
descrito, mostrando um corpo energético, crismado de corpo bioplasmático,
de qualidades e características extraordinárias.

Na Bulgária, o Dr. Georgi Lazanov, notável pesquisador dos fenômenos
parapsicológicos, é positivo em suas convicções, quando diz, a respeito, que
tudo pode ser explicado cientificamente,
pelo que se utiliza, também, de
aparelhos eletrônicos nas pesquisas.

Na Tchecoslovaquia trocaram o nome de Parapsicologia para Psicotrônica e seu
grande adepto é o Dr. Zdenek Rejdak, que considera o psi como forma de energia
dos organismos vivos.

(1) Pergunta 61 de O LIVRO DOS ESPIRITOS: “Há alguma diferença entre matéria
dos corpos orgânicos e a dos inorgânicos”? R. “A matéria é sempre a mesma, mas
nos corpos orgânicos está animalizada”.

(2) “Veja-se PARAPSICOLOGIA, SEGREDO DOS RUSSOS, editado por Martin Ebon e
EXPERIÊNCIAS PSIQUICAS ALÉM DA CORTINA DE FERRO, de Sheila Ostrander e Lynn
Schoeder.

(3) Seu verdadeiro nome é Ninel Kulagina.

Os físicos e sua contribuição ao estudo dos fenômenos extrafísicos
(anímicos).

Sucedem-se os congressos de Parapsicologia e seus resultados nada acrescentam
ao conhecimento dos fenômenos paranormais, entre eles os espíritas ou
mediúnicos, mesmo por que, quanto a estes, em particular, os trabalhos de
pesquisa pouco ou nada têm progredido. Cumpre destacar, entretanto, o trabalho
de pessoas ou grupos isolados, a respeito, por exemplo, da reencarnação, objeto
de acuradas pesquisas, pelo método da memória extra-cerebral, por parte do Dr.
Ian Stevenson (1).

Não podemos, portanto, desprezar o esforço de pesquisadores isolados ou de
grupos que, embora com muita dificuldade, procuram nos trazer, com rigores do
método científico, o conhecimento desses fenômenos, de magna importância para a
Humanidade.

Em “AS RAZÕES DA COINCIDÊNCIA”, Arthur Koestler assinala que “os
inconcebíveis fenômenos da percepção extra sensorial parecem de certo modo menos
absurdos, comparados aos inconcebíveis fenômenos da física”, querendo
demonstrar, assim, que os físicos já admitem fatos capazes de violarem todas as
leis estabelecidas pela Ciência com relação aos postulados materialistas, que
têm defendido até aqui. A PES não poderia existir por contraditar as leis da
física, entretanto, a Ciência não conhece a natureza do átomo, mas constrói seus
sistemas sobre ele e não nega a existência dos genes, embora sejam “invisíveis
aos melhores instrumentos óticos de aumento” (2).

Afirma o Prof. J. Herculano Pires, em sua obra “PARAPSICOLOGIA, HOJE E
AMANHÔ, 4ª edição, EDICEL, SP, que “A descoberta progressiva da anti-matéria, a
partir dos idos de 1930 – justamente quando nascia a Parapsicologia na
Universidade de Duke – levou os físicos de todo o mundo à descoberta do
espírito”.

Um famoso astrônomo exclama: “A matéria-prima do Universo é o espírito” – “A
NATUREZA DO MUNDO FÍSICO”, Sir Arthur Eddington.

Os físicos já não acham tão impossíveis assim, pelo menos os fenômenos
parapsicológicos, depois de se verem compelidos a aceitar a existência de
anti-partículas (anti-eletros) formando anti-matéria; de se verem à
frente de novos conceitos revolucionários, como da reversão do tempo, de
Feynman, Prêmio Nobel de Física em 1965. O fabuloso neutrino, previsto por
Wolfgang Pauli e capturado em laboratório, virtualmente não tem propriedades
físicas de massa, carga elétrica ou campo magnético, no entanto,
um deles poderia atravessar o corpo sólido da Terra, o que deixa a Ciência
perplexa, com a derrogação de suas leis (3).

Um dia, estamos certo, ela proclamará a realidade do Espírito e de todos os
fenômenos que lhe são próprios.

(1) ‘VINTE CASOS SUGESTIVOS DE REENCARNAÇÃO”

(2) “PALINGÊNESE, A GRANDE LEI”, do Dr. Jorge Andréa

(3) Sobre o fascinante assunto das modernas e revolucionárias concepções da
Física, quando “Todo um coro laureado do Prêmio Nobel ergue sua voz para nos
anunciar a morte da matéria, a morte da causalidade, a morte do determinismo”,
além de “AS RAZÕES DA COINCIDÊNCIA”, leia-se, também, ´O ESPIRITISMO EM FACE DA
CIÊNCIA DOS NOSSO DIAS”, de Jethro Vaz de Toledo, Edicel, SP.

5. CONCLUSÕES

I – O Espiritismo é ciência, por definição e essência ou conteúdo. Entretanto

“Ciência ainda não é, porque não equacionou as leis que regem a fenomenologia
mediúnica, controlada, por enquanto, pelos experimentadores do Além. No futuro,
sim, quando as leis que presidem aos fenômenos mediúnicos nos forem
reveladas…” – Dr. R. Penna Ribas, médico e Presidente da Sociedade de Estudos
e Pesquisas Espíritas, in artigo publicado em O JORNAL, de 19.07.1970.

II – Os fenômenos mediúnicos são concretos e podem ser observados e
estudados, mesmo com as cautelas que a Ciência exige. Entretanto,

“A visão panorâmica do aparelho mental sugere a extrema complexidade do
fenômeno mediúnico”.

“Evidentemente, Não podemos Ter qualquer ilusão no que tange aos fatos
mediúnicos.

Estamos longe de conhecer as leis fundamentais que vigem nesse setor de
pesquisas” – Dr. Jayme Cerviño, médico, espírita, professor de Biologia, in
“ALÉM DO INCONSCIENTE”, Edição da FEB.

“Compreendemos a necessidade de definir o fenômeno mediúnico dentro da
ciência. Não será obra dos dias atuais”.

“Os fatos estão comprovados (existência e vivência), porém o mecanismo
estrutural desses fatos continua no setor das hipóteses”.

“A mediunidade é fenômeno inconteste, desenvolvido na esfera psíquica, ainda
bem pouco compreendido pela ciência hodierna” – Dr. Jorge Andréa, médico e
Professor do Instituto de Cultura Espírita do Brasil, in “NOS ALICERCES
DO INCONSCIENTE”.

“A Codificação Espírita, no que concerne ao estudo dos fenômenos mediúnicos,
peca apenas pela falta de estrutura científica…” “Ao dizermos que a
Codificação carece de estrutura científica, longe de nós afirmarmos que Kardec
esteja superado ou que haja erros e contradições no seu conteúdo. Pelo
contrário, o que afirmamos é que, sendo a doutrina exposta pelo didata lionês em
um curto espaço de tempo e trazida a ele por comunicações espirituais, não teve
condições de esquematizar uma estrutura nos moldes científicos” – Dr. Carlos de
Brito Imbassahy, engenheiro, Professor do Instituto de Cultura Espírita do
Brasil, in Domínio Físico dos Fenômenos Mediúnicos”, artigos publicados
na Revista Internacional de Espiritismo, julho e agosto de 1973.

III – Os fenômenos anímicos, por serem de mais fácil observação e estudo, já
constituem objeto de pesquisa científica, sob a denominação de PARAPSICOLOGIA,
PSICOTRÔNICA E OUTRAS. Ainda assim, há relutância em considerá-los como
produzidos pelo Espírito, principalmente em certos países, como a Rússia, a
Bulgária etc.

IV – Será atitude de coerência e muito louvável, que os espíritas – que muito
justamente destacam o aspecto científico da Doutrina, como da maior importância
na sua difusão e como elemento de comprovação dos próprios postulados
ético-filosóficos, se organizassem para a pesquisa, em laboratório, dos
fenômenos mediúnicos, assim entendidos os oriundos de Espíritos desencarnados
(fantasmas), a fim de equacionar as leis que os regem. Afinal, não se
pode impor a ninguém, como ciência, uma Doutrina que, nesse particular, não
esteja ainda estruturada.

Revista Internacional de Espiritismo – nº 04 – Maio de 1977