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Desenvolvimento, Miséria e Espiritualização

Desenvolvimento, Miséria e Espiritualização

Lemos em “O Livro dos Espíritos”, na questão 930, a seguinte frase do dita pelos
Espíritos Superiores: “Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo ninguém
deve morrer de fome. E qual é a lei do Cristo?” Ainda segundo o entendimento da
espiritualidade, como lemos na resposta dada à questão 886, é a caridade, entendida
como: “Benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias,
perdão das ofensas”.

Lembramos as duas questões acima motivadas por um dado estatístico que aflige
o coração de todos nós. São 32 milhões de pessoas vivendo abaixo do nível de indigência,
o que significa estarem vivendo com menos de um salário mínimo por mês, impossibilitando-
as de comprar pelo menos a cesta básica de alimentos. É um respeitável contingente
humano à margem da organização social e dependente de programas sociais públicos
e particulares.

Esses 32 milhões de pessoas representam 19% da população brasileira, e estão
localizadas em bolsões populacionais do norte/nordeste e no entorno dos grandes
centros urbanos, no processo de favelização que tomou conta das cidades brasileiras.

A miséria de boa parcela da população brasileira não é um fenômeno novo, mais
histórico, que vem se acentuando nas últimas décadas apesar das políticas públicas
desenvolvimentistas, pois estas privilegiam a busca do aumento da riqueza e não
os mecanismos de distribuição da renda.

O que os espíritas estão fazendo para melhorar essa situação? Qual tem sido a
contribuição dos espíritas no combate à miséria? Para responder as duas pergunta
pode apontar o trabalho realizado por quase todo Centro Espírita na distribuição
de gêneros alimentícios, roupas e medicamentos à população pobre, mensalmente, atendendo
milhares de famílias. Mas, será que essa distribuição efetivamente combate à miséria?

É natural que para uma pessoa faminta, primeiro seja-lhe dado o alimento, para
depois tratarmos de seus outros problemas, e é justamente aqui onde está o nó do
serviço assistencial espírita, tratar os outros problemas, as outras questões que
não apenas fome imediata, pois a miséria existe causada pela falta de emprego, de
salário digno, de distribuição de riqueza equilibrada, de promoção do ser humano
como pessoa, de justiça igual para todos, de educação moral prevenindo males sociais.

É, sem dúvida, meritório socorrer a fome com a distribuição gratuita do alimento,
entretanto maior mérito é promover condições para que o ser humano se desenvolva
e consiga sair, por si próprio e graças aos esforços sociais, da miserabilidade.
Assim, serviços de alfabetização, profissionalização, capacitação técnica, orientação
familiar, atendimento psicológico, encaminhamento profissional são fundamentais
para que a miséria seja efetivamente retirada do cenário social.

Espíritas europeus em visita ao movimento espírita brasileiro ficaram maravilhados
com nossa ação social, mas ao mesmo tempo constrangidos e desnorteados, pois em
vários países do velho continente a miséria não existe, não faz sentidos a distribuição
de bolsas de mantimentos, roupas e remédios. Tudo isso é provido pelo governo através
de programas sociais bem definidos e estruturados. Não existe a miséria, mas existe
o suicídio, o desemprego eventual, o alcoolismo, o aborto, a violência, o consumismo
exagerado, o materialismo. Quais são as ações espíritas brasileiras nesse sentido?
Poucas, bem poucas.

Embora encontremos nas obras da Codificação, a todo o momento, o alerta de que
o Espiritismo é doutrina de educação do homem imortal, nem mesmo apoio ao trabalho
em escolas encontramos. Apesar de algumas campanhas pela família, boa parte dos
Centros Espíritas não possui grupo de pais.

Ainda persiste o Centro Espírita visto apenas do ponto de vista religioso confessional,
com reuniões públicas, mocidade, evangelização infantil, reunião mediúnica e assistência
material a famílias cadastradas, com os trabalhadores e freqüentadores marcando
ponto em dias e horários preestabelecidos, tomando passe, bebendo água fluidificada
e completamente desvinculados da sociedade em que vivem.

Os que trabalham para mudar esse quadro, com visão abrangente e ações exteriores
intensas, embora sejam motores do progresso do movimento espírita, passam os dias
da existência criticados, repudiados, analisados, suspeitos eternos de descaracterizar
a doutrina, quando na verdade são operários vigilantes obedecendo à máxima dos Espíritos
Superiores: se nos regemos pelos ensinos de Jesus, ninguém, na sociedade humana,
pode morrer de fome.

Naturalmente não estamos defendendo radicalismos e nem condenando os trabalhos
desenvolvidos pelos Centros Espíritas, pois toda ação no bem com desinteresse é
meritória, mas não basta distribuir hoje o que amanhã tornará a faltar e assim sucessivamente.
É necessário promover o desenvolvimento social para todos formar as novas gerações
nesse pensamento, para que elas, mais tarde ao assumirem seu papel adulto, corrijam
as distorções e mantenham a nação brasileira longe do espetáculo da miséria, da
indigência, dos sem teto, sem terra, sem emprego.

A caridade é a lei do Cristo, e ela não se confunde com a esmola ou com a atuação
emergencial, como repetimos há mais de um século com relação à seca no nordeste.
O problema nunca é resolvido e quando a calamidade chega aos meios de comunicação
providenciamos alguns carros pipa, frentes de trabalho para construir açudes secos
pagando meio salário mínimo aos trabalhadores, bolsas básicas de mantimentos, tudo
isso por um período breve, suficiente apenas para minorar as agruras que voltarão
no próximo ano, e no outro, e em tantos outros anos. Repetimos isso no atendimento
aos moradores de favelas urbanas, ou comunidades carentes, sustentando famílias
por determinado período e depois substituindo-as, pois as necessidades são grandes
e não podemos atender todos. Mas a família desligada do serviço assistencial está
pronta para caminhar sozinha? Seus responsáveis já estão empregados? Os filhos estão
na escola? Boa orientação moral comanda agora essa família? Vamos repetir, neste
primeiro século do novo milênio da era cristã?

A ação espírita deve contemplar a espiritualização do homem, fazendo com que
ele estude, compreenda e coloque em prática os ensinos de Jesus, ampliando os horizontes
da caridade e moralizando a sociedade em que vive. Esse é o trabalho que deve ser
feito, combatendo e erradicando para sempre a miséria.

(Publicado no Correio Fraterno do ABC Nº 364 de Maio de 2001)

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