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Filosofia da Ciência Espírita – III – Ciência

Filosofia da Ciência Espírita – III – Ciência

Continuando nossa análise sobre a construção do conhecimento, devemos lembrar
que a primeira grande busca do ser humano foi em torno do sobrenatural, com
conotações não racionais, desenvolvendo as religiões, que, de modo geral, eram
atreladas ao Estado não permitindo ao indivíduo pensar livremente. Daí
aparecerem desafiadores propondo um método reflexivo dependente apenas do ser.
Através dele (especulum), o filósofo (amigo do saber) pode criar a própria
explicação de um fenômeno, agora sempre natural. Porém vimos os ” filósofos ” da
Escolástica no final da Idade Média usando o método aristotélico de forma
viciosa, chegando ao ponto de não haver observações da Natureza, mas apenas a
leitura dos livros de Aristóteles. Essa forma escolástica, ainda que racional,
não é progressivo e paralisa o progresso.

Ao contrário do que muitos pensam, a aquisição do conhecimento segundo a
História dos encarnados não se realiza numa forma contínua, acumulativa. O que
acreditamos hoje pode ser considerado falso no futuro, pois a visão, a concepção
e a interpretação de um certo fenômeno pode mudar radicalmente e um conceito
antigo tornar-se insustentável para. Cabe ao pesquisador definir outro conceito
sobre o qual serão apoiadas todas as novas idéias, mas o padrão antigo deverá
ser ignorado. Desse modo, o conhecimento de hoje não se apóia totalmente numa
conquista do passado.

Os períodos de produção acumulativa de informação são intermeados por tempos
de discussão de conceitos. Então, por exemplo, um padrão de idéias (paradigma)
numa época “sustenta” a produção de explicações até um certo ponto; chegará um
momento quando, devido ao avanço da tecnologia e nos instrumentos de pesquisa,
esse paradigma não mais será lógico (ponto de crise do paradigma); a seguir, os
pesquisadores entrarão num tempo de discussão do padrão adotado (sem muita
extração de informação a respeito do fenômeno) até que se defina um novo
paradigma, servindo de base para a nova produção de conhecimento.

Um dos fatos mais famosos, que reflete não apenas a opressão da ignorância
humana, mas também a crise interna da filosofia viciosa acontece no final do
período medieval, com o princípio do Heliocentrismo. Cláudio Ptolomeu que viveu
no século II d.C. e, baseando-se em premissas aristotélicas, concluiu que a
Terra seria um ponto fixo no Universo e todos os astros (conhecidos com a
tecnologia da época) giravam em torno dela. Criou dessa forma o paradigma do
Geocentrismo, uma tentativa de explicar através de complicadas fórmulas
matemáticas, como os astros movimentam-se em esferas. Essa tentativa
possibilitou o desenvolvimento de áreas de Matemática. O problema foi devido aos
filósofos do final da Idade Média não aceitarem nenhum novo paradigma. No
entanto Nicolau Copérnico ( 1493 – 1543 ) apresentou um modelo
astronômico-matemático em seu livro “de Revolutionibus” propondo o
Heliocentrismo, no qual o Sol era o centro do Universo e a Terra um dos planetas
que giram em torno. Além de explicar mais, era mais simples, comparado ao modelo
de Ptolomeu. Foi uma questão de não se renovar paradigmas.

Se recordarmos o estudo anterior (Agosto), o próprio método de Aristóteles
(indutivo-dedutivo) indica que o primeiro passo à formação de uma explicação é a
observação, então a indução de premissas e, finalmente, as deduções. No final do
período medieval, os pensadores faziam um “curto-circuito” nesse método, uma vez
que mal se observava o fato, já havia deduções prontas tiradas dos livros de
Aristóteles. Havia ainda o problema dos dogmas, as ” verdades ” inabaláveis da
Igreja, impedindo novas idéias de se estabelecerem, com a pena do pesquisador
ser excluído, castigado ou morto.

Francis Bacon ( 1561 – 1626 ) é considerado um dos primeiros pensadores
atacantes do vício sobre Aristóteles. Afirmava que a fonte de todo o
conhecimento deveria ser a própria Natureza e não os livros de Aristóteles.
Iniciou, desse modo, um ramo forte na Filosofia que se tornará a base da Ciência
moderna: o Empirismo. Este aceita como única fonte de conhecimento humano as
observações e os experimentos. O raciocínio não poderia, sozinho, criar teorias,
devendo sempre submete-las às experiências sensoriais.

Entretanto, o grande pai de todas as Ciências e o revolucionário dos
paradigmas filosóficos foi Galileu Galilei ( 1564 – 1642 ). Assim como Sócrates
é considerado o ” fundador ” da verdadeira Filosofia, Galileu pode ser visto
como o criador dessa nova área, desse novo método do conhecimento chamado
Ciência. Para excluir definitivamente enganos, deturpações e má interpretações
dos fenômenos naturais era necessário adotar o método mais rigoroso, mais
sistêmico e regular: a Matemática. Galileu estava convencido de que o livro da
Natureza acha-se escrito na língua da Matemática. As qualidades de todos os
objetos e fenômenos devem ser necessariamente quantificáveis, de tal forma que
dois objetos são diferentes não por possuírem qualidades intrínsecas, próprias,
mas sim por serem quantitativamente diferente. Por exemplo, Aristóteles via o
Universo formado por quatro elementos primordiais (terra, água, ar e fogo) e a
sua combinação geraria qualidades intrínsecas (pesado ou leve, frio ou quente,
seco ou úmido). Já para Galileu, a diferença de algo pesado ou leve é
quantidade
de massa e um corpo é mais quente que outro por quantidade
de temperatura (energia térmica), mas na profundidade eles possuem as mesmas
qualidades (massa e energia térmica).

Dessa forma, Galileu propôs uma demarcação entre interpretações
não-científicas (qualitativas) e científicas (quantitativas), para, nessas
últimas, delimitar o que era aceitável e o que não era.

Assim, para pensar cientificamente não basta observar, fazer experimentos e
tirar conclusões, como prega o Empirismo puro. É necessário observar
quantificando o que se vê (o quanto for possível), elaborar hipóteses,
testá-las, associá-las para formular explicações com idéias matemáticas
implícitas. Mais tarde, John Herschel ( 1792 – 1781 ) afirmou que o cientista
deve combinar as explicações para determinar Leis da Natureza, ou seja, as
propriedades dos fenômenos bem como a seqüência de eventos. A associação das
Leis Naturais deve levar às Teorias, isto é, inter-relações das leis desconexas
através de criação de hipóteses ousadas.

Galileu foi o primeiro “cientifizador” da História. Particularmente, seus
objetos de estudo eram relacionados com a Astronomia e a Física. Mas para cada
área do conhecimento estudado pela Filosofia ou outros métodos racionais ou não,
têm surgido “cientifizadores” dando um caráter científico a um determinado
objeto (assunto) de estudo. Desse modo, vemos ao longo da História as diferentes
ciências surgindo, elevando os diversos assuntos relacionados com a Natureza à
categoria de um método experimental, quantitativo e rigoroso. Para citar, como
exemplo algumas, lembramos:

  • Física (objeto: matéria de um modo geral e suas transformações
    reversíveis): uma das Ciências mais antigas, mesmo considerando o período
    quando era estudada apenas pela filosofia; Galileu lançou os primeiros
    argumentos quantitativos, mas Isaac Newton (1642 – 1727) formulou as teorias
    (quantitativas) sobre a gravidade e outras leis da dinâmica, óptica,
    cinemática, etc.
  • Química (objeto: composição íntima da matéria e suas reações): antigamente
    estudada pela filosofia e Alquimia; Antoine Laurent Lavosier (1743 – 1794)
    demonstrou a conservação das massas numa reação química; mais tarde, Dalton
    elaborou a teria do átomo, propondo que numa reação química, os átomos das
    substâncias envolvidas apenas reorganizam-se quantitativamente.
  • Biologia (objeto: seres vivos): em 1735, o botânico sueco Karl Von Lineu
    propõe regras de classificação dos seres vivos, considerando suas semelhanças
    e diferenças quantitativas; mais tarde, as teorias evolucionistas de Charles
    Darwin colocam a Biologia nos trilhos da ciência.
  • Medicina (objeto: doenças): no começo do século XIX, apesar das
    demonstrações e teorias de Hanemman, ainda a maior parte dos médicos estudavam
    as doenças como se fosse uma qualidade ruim exterior adquirida; então Claude
    Bernard publicou um método de investigação dependente da visão das doenças
    como uma variação quantitativa do estado fisiológico normal.
  • Ciências humanas: também no século XIX, houve uma conceituação científica
    a respeito da Sociedade, da História, Antropologia, etc. Karl Marx, Augusto
    Comte e outros foram os “cientifizadores”.

Em síntese, depois do período medieval, Galileu inicia o processo de “cientifização”
(quantificação das diferenças) na área de Física. Depois dessa Renascença
Cultural (século XVI), houve o Iluminismo (século XVIII) em que filósofos
renovavam os antigos conceitos e novas ciências apareceram. Foi uma época de
contestação política e vários filósofos e cientistas foram mortos, como Lavosier,
guilhotinado na Revolução Francesa. No século XIX, novas ciências afirmaram-se
em torno do Positivismo, uma corrente filosófica cujo objetivo era “alcançar a
felicidade plena do ser humano” através da prática da mais rigorosa ciência.
Muitos positivistas excederam-se em seu orgulho e até mesmo “fanatismo”
científico e fecharam os olhos para diversos fenômenos “tradicionalmente”
considerados naturais.

Aliás, havia uma grande parte do conhecimento, crucial para o desenvolvimento
sociológico e antropológico da criatura humana, que ainda estava sob as trevas
da ignorância em pleno século XIX: as religiões. Conceitos como moral, por
exemplo, eram vistos na forma antiga qualitativa. Assim como, na interpretação
antiga, a “coisa” Luz era diferente da “coisa” Sombra, o Leve diferente do
Pesado, o Quente diferente do Frio, etc., o Bem seria uma força na Natureza
totalmente oposta à a força do Mal. Dificilmente através dos paradigmas antigos
(dogmas) das religiões, seria concebido que, como a sombra é a ausência da luz,
frio é a ausência do calor, o leve é a falta de massa, o mal é a ausência do
bem.

Devemos entender, portanto, as Ciências como uma imensa porta que se abre
diante da Verdade Real, base de qualquer descoberta, primeiro passo ao processo
de auto-encontro. Contudo, se os fatos se sucedessem como os orgulhosos
positivistas do século XIX, muitas verdades seriam abandonadas. Houve será um “cientifizador”
da religião e, por conseqüência, do fenômeno mediúnico associado à suas verdades
(ver estudo de Julho)? Descobriremos nas próximas páginas.

Referências Bibliográficas:

  • Abbagnano, Nicola (2000). Dicionário de Filosofia, 4a Edição.
    Martins Fontes.
  • Abrão, Bernadette Siqueira (1999). História da Filosofia. Nova Cultura.
  • Durozoi, Gerard & Boussel, André. Dicionário de Filosofia, 2a
    Edição. Papirus.
  • Losee, John (1979). Filosofia da Ciência. Itatiaia.
  • Kardec, Allan (1999). A Gênese, 19a Edição. LAKE.
    Capítulo 1.

Outubro / 2001

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