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Léon Denis

José Basilio

(Texto de José Basílio, baseado no livro “Páginas de Léon Denis” de Sylvio
Brito Soares e adaptado pelo Centro LEME, de Sines. Enviado por David Pires,
Portugal)

Nascimento: Foug, França – 1846
Falecimento: Tours, França – 1927

Léon Denis nasceu numa aldeia chamada Foug, situada nos arredores de Tours,
em França, a 1 de Janeiro de 1846, numa família humilde.

Cedo conheceu, por necessidade, os trabalhos manuais e os pesados encargos da
família.

Não era seu hábito desperdiçar um minuto sequer de seu tempo, com distrações
frívolas, às quais a maior parte dos homens recorre para matar as horas.

Desde os seus primeiros passos neste mundo, sentiu que os amigos invisíveis o
auxiliavam. Ao invés de participar em brincadeiras próprias da juventude,
procurava instruir-se o mais possível. Lia obras sérias, conseguindo assim, com
esforço próprio desenvolver a sua inteligência. Tornou-se um autodidacta sério e
competente.

Aos 12 anos concluiu o curso primário, mas a situação modesta da sua família
não lhe permitiu grandes estudos. Desde cedo teve problemas de saúde física: com
os olhos principalmente. Aos 16 anos salientou-se como um dos melhores oradores
e ardente propagandista.

Aos 18 anos tornou-se representante comercial da empresa onde trabalhava,
facto que o obrigava a viagens constantes, situação que se manteve até à
reforma.

Denis adorava a música e sempre que podia assistia a uma ópera ou concerto.
Gostava de dedilhar, ao piano, árias conhecidas e de tirar acordes para seu
próprio devaneio.

Não fumava, era quase exclusivamente vegetariano e não fazia uso de bebidas
fermentadas. Encontrava na água a sua bebida ideal.

Era seu hábito olhar, com interesse, para os livros expostos nas livrarias.
Um dia, ainda com 18 anos, o chamado acaso fez com que a sua atenção fosse
despertada para uma obra de título inusitado. Esse livro era “O Livro dos
Espíritos” de Allan Kardec. Dispondo do dinheiro necessário, comprou-o e,
recolhendo-se imediatamente ao lar, recolhendo-se imediatamente ao lar,
entregou-se com avidez à leitura. O próprio Denis disse: “Nele encontrei a
solução clara, completa e lógica, acerca do problema universal. A minha
convicção tornou-se firme. A teoria espírita dissipou a minha indiferença e as
minhas dúvidas”. O seu espírito, nessa hora, sentiu-se sacudido em face dos
compromissos assumidos no Espaço, para iniciar, em breve, o trabalho de
propagação das verdades Kardecianas. “Como tantos outros” – disse ele –
“procurava provas, factos precisos, de modo a apoiar a minha fé, mas esses
factos demoraram muito a chegar. A princípio insignificantes, contraditórios,
mesclados de fraudes e mistificações, que não me satisfizeram, aponto de, por
vezes, pensar em não mais prosseguir as minhas investigações. Mas, sustentado,
como estava, por uma teoria sólida e de princípios elevados, não desanimei.
Parece que o invisível deseja experimentar-nos, medir o nosso grau de
perseverança, exigir certa maturidade de espírito antes de entregar-nos aos seus
segredos”.

Encontrava-se nos seus trabalhos de experimentações, quando importante
acontecimento se verificou na sua vida: Allan Kardec viera passar alguns dias na
pacata cidade de Tours, com seus amigos. Todos os espíritas turenses foram
convidados a recebê-lo e a saudá-lo.

Em 1880, pelas cidades e vilas que percorria, por força dos seus afazeres
profissionais, pronunciava conferências e fundava círculos e bibliotecas
populares. É incalculável o número de conferências por ele proferidas em França,
no propósito de propagar a “Liga de Ensino”, fundada por Jean Macé.

O ano de 1882 marca, em realidade, o início do seu apostulado, durante o qual
teve que enfrentar sucessivos obstáculos: o materialismo e o positivismo que
olham para o Espiritismo com ironia e risadas e os crentes das demais correntes
religiosas, que não hesitam em aliar-se aos ateus, para o ridicularizar e
enfraquecer. Léon Denis porém, como bom paladino, enfrenta a tempestade. Os
companheiros invisíveis colocam-se ao seu lado para o encorajar e exortá-lo à
luta.

“Coragem, amigo” – diz-lhe o espírito de Jeanne – “estaremos sempre contigo
para te sustentar e inspirar. Jamais estarás só. Meios ser-te-ão dados, em
tempo, para bem cumprires a tua obra”.

A 2 de Novembro de 1882, dia de Finados, um evento de capital importância
produziu-se na sua vida: a manifestação, pela primeira vez, daquele Espírito
que, durante meio século, havia de ser o seu guia, o seu melhor amigo, o seu pai
espiritual – Jerónimo de Praga – que lhe disse: “Vai meu filho. Pela estrada
aberta diante de ti. Caminharei atrás de ti para te sustentar”. E como Léon
Denis indagasse se o seu estado de saúde o permitiria estar à altura da tarefa,
recebeu esta outra afirmativa:

“Coragem, a recompensa será mais bela.”

A partir de 1884, achou conveniente fazer palestras visando à maior difusão
das idéias espíritas. Escreveu, em 1885, o trabalho “O Porquê da Vida”, no qual
explica, com nitidez e simplicidade, o que é o espiritismo.

Em 1892, recebeu um convite da duquesa de Pomar, para falar de espiritismo na
sua residência, numa dessas manhãs célebres, em que se reunia quase toda a
Paris. Ele ficou indeciso e temeroso. Depois de muito meditar as
responsabilidades, aceitou o convite.

“Le Journal” de Paris publicou, acerca da reunião na casa da duquesa, a
seguinte notícia: “A reunião de ontem, para ouvir a conferência de Léon Denis
sobre a Doutrina Espírita, foi uma das mais elegantes. De uma eloqüência muito
literária, o orador soube encantar o numeroso auditório, falando-lhe do destino
da alma, que pode, diz ele, reencarnar até à sua perfeita depuração. Ele possui
a alma de um Bossuet e soube criar um entusiasmo espiritualista”.

O êxito do seu livro “Depois da Morte” situara-o como escritor de primeira
ordem. Os grandes jornais e revistas ecléticas solicitavam-no e as tiragens
sucessivas desse livro esgotavam-se rapidamente.

A principal obra literária de Denis foi a concernente ao Espiritismo, mas
escreveu, outrossim, segundo o testemunho de Henri Sausse, várias outras, como:
Tunísia, Progresso, Ilha de sardenha, etc.

A partir de 1910, a visão de Léon Denis foi, dia a dia, enfraquecendo. A
operação a que se submetera, dois anos antes, não lhe proporcionara nenhuma
melhora, mas suportava, com calma e resignação, a marcha implacável desse mal
que o castigava desde a juventude. Aceitava tudo com estoicismo e resignação.
Jamais o viram queixar-se. Todavia, bem podemos avaliar quão grande devia ser o
seu sofrimento.

Mantinha volumosa correspondência. jamais se aborrecia. Amava a juventude,
possuia a alegria da alma. Era inimigo da tristeza.

O mal físico, para ele, devia ser bem menor do que a angústia que
experimentava pelo facto de não mais poder manejar a pena. Secretárias
ocasionais substituíam-no nesse ofício. No entanto, a grande dificuldade para
Denis, consistia em rever e corrigir as novas edições dos seus livros e dos seus
escritos. Graças, porém, ao seu espírito de ordem e à sua incomparável memória,
superava todos esses contratempos, sem molestar ou importunar os amigos.

Depois da morte da sua genitora, uma empregada cuidava da sua pequena
habitação. Ele só exigia uma coisa: o absoluto respeito às suas numerosas notas
manuscritas, as quais ele arrumava com meticulosa precaução. E foi justamente
por causa dessa sua velha maniaque a duquesa de Pomar o denominara “o homem dos
pequenos papéis”.

Em 1911, após despender não pequeno esforço, no preparo da nova edição d’ “O
Problema do Ser, do destino e da Dor”, ficou gravemente doente com uma
pneumonia; foi o tratamento atempado do seu médico que, num curto espaço de
tempo, o colocou de novo em pé.

Contudo uma grande e profunda dor lhe estava reservada: veio a Guerra de
1914-18 e o seu espírito condoía-se ao ver partir para a frente de batalha a
maioria dos seus amigos.

Léon padecia, então, de uma doença intestinal e estava parcialmente cego.

Pela incorporação, os seus amigos do Espaço e, entre eles, um Espírito
eminente, comunicavam-lhe, de tempos em tempos, as suas opiniões sobre essa
terrível guerra, considerada nos seus dois aspectos: o visível e o oculto.

Estas comunicações levaram-no a escrever um certo número de artigos,
publicados na “Revue Spirite”, na “Revue Suisse des Sciences Psychiques” e no
“Echo Fid”, onde transparece, dentro da lei de causa e efeito, o seu grande amor
pela terra onde nasceu.

Quando a Guerra se aproximava do fim, a “Revue Spirite” passou a publicar, em
todos os seus números, artigos de Léon Denis.

Após a 1ª Grande Guerra, aprendeu braille, o que lhe permitiu fixar no papel
os elementos de capítulos ou artigos que lhe vinham ao espírito, pois, nesta
época da sua vida, estava, por assim dizer, quase cego.

Em 1915 iniciava ele uma nova série de artigos, repassados de poesia profunda
e serena, sobre a voz das coisas, preconizando o retorno à Natureza.

Nesta época, um forte vento soprava contra o Kardecismo. O fenomenismo
metapsiquista espalhava aos quatro ventos a doutrina do filósofo puro. P. Heuzé
fazia muito barulho através do “L’ Opinion”, com as suas entrevistas e
comentários tendenciosos. Afirmava, prematuramente, que, à medida que a
metapsíquica fosse avançando, o Espiritismo iria, a par e passo, perdendo
terreno. A sua profecia, no entanto, ainda não se realizou.

Após a vigorosa resposta de Jean Meyer na “Revue Spirite”, Léon Denis por sua
vez, entrou na discussão, na qualidade de presidente de honra da União Espírita
Francesa, numa carta endereçada ao “Matin”, na qual estabelecia, com admirável
nitidez, a diferença entre Espiritismo e Metapsiquismo.

A partir desse momento, Léon denis teve que exercer grande actividade
jornalística para responder às críticas e ataques de altos membros da Igreja
Católica, saindo-se, como era de esperar, de maneira brilhante.

Em Março de 1927, com 81 anos de idade, terminara o manuscrito que intitulou
de “O Génio Céltico e o Mundo Invisível”. Neste mesmo mês a “Revue Spirite”
publicava o seu derradeiro artigo.

Terça-feira, 12 de março de 1927 pelas 13 horas, respirava Denis com grande
dificuldade. A pneumonia atacava-o novamente. A vida parecia abandoná-lo, mas o
seu estado de lucidez era perfeito. As suas últimas palavras, pronunciadas com
extraordinária calma, apesar da muita dificuldade, foram dirigidas à sua
empregada Georgette: “É preciso terminar, resumir e… concluir”. Fazia alusão
ao prefácio da nova edição biográfica de Kardec. Neste preciso momento,
faltaram-lhe completamente as forças, para que pudesse articular outras
palavras. Às 21.00 horas o seu espírito alou-se. O seu semblante parecia ainda
em êxtase.

As cerimónias fúnebres realizaram-se a 16 de Abril. A seu pedido, o enterro
foi modesto e sem o ofício de qualquer Igreja confessional. Está sepultado no
cemitério de La Salle, em Tours.

Abaixo, alguns livros de Léon Denis:

  • Cristianismo e Espiritismo (Ed.
    FEB
    )
  • Depois da Morte (Ed.
    FEB
    )
  • Espiritos e Médiuns (Ed. CELD)
  • Joana D’Arc, Médium (Ed.
    FEB
    )
  • O Além e a Sobrevivência do Ser (Ed.
    FEB
    )
  • O Espiritismo na Arte (Ed.
    FEB
    )
  • O Porquê da Vida (Ed.
    FEB
    )
  • O Problema do Ser, do Destino e da Dor (Ed.
    FEB
    )
  • Socialismo e Espiritismo (Ed.
    “O Clarim”
    )

(Publicado no Boletim GEAE Número 340 de 13 de abril de 1999)

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