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A Terra em nossas mãos

A Terra em nossas mãos

 

“Não vá levar tudo tão a sério
Sentindo que dá, deixa correr
Se souber confiar no seu critério
Nada a temer

Não vai levar tudo tão na boa
Brigue para obter o melhor
Se errar por amor, Deus abençoa

Seja você

No que sua crença vacilou
A flor da dúvida se abriu
Vou ler a carta que o Bié mandou
Pra você lá do Brasil:

‘Eles me disseram tanta asneira, disseram só besteira
Feito todo mundo diz
Eles me disseram que a coleira e um prato de ração
Era tudo o que um cão sempre quis

Eles me trouxeram a ratoeira com um queijo de primeira
Que me, que me pegou pelo nariz
Me deram uma gaiola como casa, amarraram minhas asas
E disseram para eu ser feliz

Mas como eu posso ser feliz num poleiro
Como eu posso ser feliz sem pular?
Mas como eu posso ser feliz num viveiro
Se ninguém pode ser feliz sem voar?

Ah, segurei meu pranto para transformar em canto
E para meu espanto minha voz desfez os nós
Que me apertavam tanto

E já sem corda no pescoço, sem as grades na janela
E sem o peso das algemas na mão
Eu encontrei as chaves dessa cela
Devorei o meu problema e engoli a solução

Ah, se todo mundo pudesse saber
Como é fácil viver fora dessa prisão
E descobrisse que a tristeza tem fim
E a felicidade pode ser simples como um aperto de mão

Entendeu?

É esse o vírus que eu sugiro que você contraia
Na procura pela cura da loucura, quem tiver cabeça dura vai morrer na praia”

(Djavan e Gabriel, o Pensador )

“As idéias só se transformam com o tempo e não subitamente, elas se
enfraquecem de geração em geração e acabam por desaparecer com os que as
professam e que são substituídos por outros indivíduos imbuídos de novos
princípios”; é o que nos afirma Allan Kardec.

E o que temos observado? Senão que a “coleira” do materialismo, a “ração” do
que o corpo físico me proporciona, só pouco a pouco vai deixando de ser eficaz
em me auxiliar a alcançar meu objetivo maior: ser feliz.

Por que só muito lentamente a humanidade vai descobrindo que ser feliz é, (só
poder ser!), mais do que me “engaiolar” na tranqüilidade da minha indiferença à
dor do outro; não há como encontrá-la sem pular, sem voar sem cantar, sem me
arriscar a “viver fora dessa prisão” e acabar descobrindo que “a tristeza tem
fim e a felicidade pode ser simples como um aperto de mão”.

Consideramos ser interessante nesse ponto de nossa atividade estarmos nos
situando dentro do Espiritismo, ou seja, localizarmos os instrumentos teóricos a
partir do qual estaremos empreendendo uma análise da sociedade contemporânea, ou
em alguns de seus aspectos, bem como da ética cidadã em paralelo com a ética
cristã.

Parte 1: “Mas nós, na verdade, quem somos nós?” (Plotino)

A resposta já se faz: há no homem três coisas: 1) o corpo ou ser material
análogo ao dos animais e animado pelo mesmo princípio vital; 2) a alma ou ser
imaterial, o espírito encarnado no corpo; 3) o laço que une a alma ao corpo,
princípio intermediário entre a matéria e o espírito.

O homem tem assim duas naturezas: pelo corpo, participa da natureza dos
animais, dos quais tem o instinto; pela alma, participa da natureza dos
espíritos. Pelo perispírito é possível a intercessão destes dois mundos durante
a reencarnação ou mesmo no fenômeno mediúnico (mas que não nos cabe aqui
discorrer sobre o assunto).

Cremos ser este o parâmetro essencial para estarmos pensando nosso tema:
“Jovem Cristão, cidadão do mundo”, e para desenvolvermos uma compreensão clara
deste que é o nosso paradigma de avaliação, estaremos nessa parte 1 trabalhando
4 dos Princípios Básicos do Espiritismo, o que não nos atenderá por completo,
mas será suficiente para o estabelecimento de um diálogo. São eles: Evolução,
Espírito, Reencarnação, Perispírito.

Após termos estabelecido o piso teórico, estaremos então construindo uma
reflexão crítica da atualidade, do jovem e do Cristianismo, buscando descobrir
que diálogos poderiam ocorrer entre estes universos.

Evolução e Espírito

L.E 114: “Os espíritos são bons ou maus por natureza ou são eles mesmos que
se melhoram?

São os próprios espíritos que se melhoram e, melhorando-se passam de uma
ordem inferior para uma ordem superior
.”

L.E 115: “Entre os espíritos, alguns foram criados bons e outros maus?

Deus criou todos os espíritos simples e ignorantes, quer dizer, sem
ciência…

L.E 116: “Há espíritos que permanecerão perpetuamente nas ordens inferiores?

Não, todos se tornarão perfeitos…

L.E 120: “Todos os espíritos passam pela fieira do mal?

Não pela fieira do mal, mas, pela da ignorância

O homem cuja tradição se conservou sob o nome de Adão foi um dos que
sobreviveram, em alguma região, a um dos grandes cataclismas que em diversas
épocas modificaram a superfície do globo e tornou-se o tronco de uma das raças
que hoje o povoam.

Os povos fizeram idéias bastante divergentes sobre a Criação, segundo o grau
de seus conhecimentos.

A Ciência, escavando os arquivos da Terra, descobriu a ordem em que os
diferentes seres vivos apareceram na superfície do planeta e essa ordem concorda
com a indicada no Gênesis, com a diferença do cálculo do tempo levado para a
realização de tal obra, pois segundo ela teria levado alguns milhões anos. Deus
seria, por isso, menor ou menos poderoso? Evidentemente não. É preciso fazer da
Divindade uma idéia bem mesquinha, para não reconhecer sua onipotência nas leis
eternas.

As idéias religiosas, longe de se perderem, se engrandecem, ao marchar com a
Ciência, este o único meio de não apresentarem ao ceticismo um elo vulnerável.
Há nessa pujante vida basicamente dois tipos de criaturas: os seres orgânicos e
os seres inorgânicos.

Os seres orgânicos são os que trazem em si mesmos uma fonte de atividade
íntima que lhes dá a vida; compreendem os homens, os animais e as plantas. Os
seres inorgânicos são os que não possuem vitalidade nem movimento próprios,
sendo formados apenas pela agregação da matéria: os minerais, água, o ar, etc.
Ora, ficamos sabendo através do L.E., questões números 60 e 61 que uma mesma lei
rege a formação material dos corpos dos seres orgânicos e dos inorgânicos – a
lei de atração – e que a única diferença seria justamente a presença, nos
primeiros, de uma animalização propiciada pela presença do que no Espiritismo
denominamos Fluido Vital. A conclusão empreendida pela Biologia é de uma
continuidade evolutiva entre estes seres. Mas há ainda outro fenômeno que
transcenderia a questão da vitalidade, pois alguns dos seres orgânicos
curiosamente apresentam a capacidade de serem conscientes de si mesmos, têm
vontade própria, percebem-se individuais e capazes de estabelecer relações não
somente entre eles como também com a natureza (demais seres orgânicos e seres
inorgânicos), esse fenômeno foi denominado Inteligência e é, como bem todos
podem avaliar, observado em sua plenitude de potencial nos seres humanos. Ainda
segundo o L.E., desta vez questão 71, ela não é atributo do princípio vital, nem
tampouco depende da matéria, tendo existência autônoma em relação a esta. A
inteligência é uma faculdade especial, que através do pensamento propicia ao
indivíduo realizar tudo aquilo que acima foi descrito.

Encontramos bem caracterizado aí, por Kardec, o Homem; mas apesar do que
possa custar ao seu orgulho, o homem deve resignar-se a ver, em seu corpo
material, apenas o último traço da animalidade sobre a Terra. Mas por outro
lado, quanto mais o corpo diminui de valor a seus olhos, mais aumenta de
importância o princípio espiritual; se o primeiro o põe ao nível do bruto o
segundo o eleva a incomensuráveis alturas. Vemos o círculo onde pára o animal.
Não vemos, entretanto, o limite a que pode atingir o Espírito do homem. Podemos
assim, começar a entender o que o Espírito de Verdade quer dizer ao nos definir
como “princípio inteligente do Universo”, na questão 23 do L.E.

A existência do princípio espiritual é um fato que não tem, por assim dizer,
maior necessidade de demonstração do que o princípio material é uma verdade
axiomática: afirma-se pelos seus efeitos – “todo efeito tem uma causa, todo
efeito inteligente deve ter uma causa inteligente”. Podemos neste momento melhor
compreender a resposta dada à pergunta inicial que constitui o título da parte
1: “mas nós, na verdade, quem somos nós?”

Somos espíritos, seres inteligentes que tendem à perfeição e Deus lhes
fornece os meios pelas provas da vida corpórea, onde lhes é facultado realizar o
que não puderam fazer ou concluir numa primeira prova.

Reencarnação:

L.E 166: “A alma que não alcançou a perfeição na vida corpórea, como
acaba de depurar-se?

Suportando a prova de uma nova existência.”

166a: “Como a alma realiza essa nova existência? É por sua
transformação como espírito?

Depurando-se a alma sofre, sem dúvida, uma transformação; mas para isso lhe é
necessária a prova da vida material.”

166 b: “A alma passa, pois, por várias existências corporais?

Sim, todos nós passamos por várias existências físicas. Os que dizem o
contrário, pretendem manter-vos na ignorância em que eles próprios se encontram,
esse o seu desejo
.”

166 c: “Parece, resultar desse princípio que a alma depois de deixar
um corpo toma outro, ou, então, ela se reencarna em novo corpo; é assim que se
deve entender?

É evidente.”

Não estaria de acordo com a eqüidade, nem com a bondade de Deus, castigar
para sempre aqueles que encontraram obstáculos ao seu progresso,
independentemente da sua vontade, no próprio meio onde foram colocados. A
doutrina da reencarnação é a única que responde à idéia que fazemos da justiça
de Deus em relação aos homens.

Assim, o espírito ou princípio inteligente dá continuidade à sua evolução,
desenvolvendo potenciais e amadurecendo faculdades psíquicas e morais, através,
principalmente, das oportunidades que a reencarnação oferece. Poderá caminhar do
estágio de simples e ignorante à condição de perfeição, jornada que não tem
prazo para se efetuar, dependendo do próprio indivíduo levar mais ou menos
tempo. Encontramos aí a explicação mais lógica para tamanhas diferenças
comportamentais, intelectuais e morais na humanidade.

Perispírito

L.E 93: “O espírito propriamente dito tem alguma cobertura ou esta, como
pretendem alguns, é envolvido em uma substância qualquer?

O espírito está revestido de uma substância vaporosa para os teus olhos,
mas ainda bem grosseira para nós; para poder elevar-se na atmosfera e se
transportar para onde queira

Não se pode conceber a alma, senão acompanhada de uma matéria qualquer que a
individualize, visto que, sem isso, impossível lhe fora pôr-se em relação com o
mundo exterior. Na Terra, o corpo humano é o médium que nos põe em contato com o
meio social; mas, após a morte, destruído que se acha o organismo vivo, mister
se faz que a alma tenha outro envoltório para entrar em relações com o novo meio
onde vai habitar. É ele, o perispírito, a sede das sensações, forma que mantém e
conserva a própria estrutura do corpo carnal; ele arquiva em seus refolhos, como
que superpostos em camadas vibratórias, todos os acontecimentos, todos os fatos,
atos, sensações e até pensamentos que tenhamos produzido através das nossas
imensas etapas evolutivas.

Parte 2: Eu e o Espiritismo – mais um momento ou um novo momento?

Um tempo se acaba, novos tempos se anunciam. A hora em que estamos é uma hora
de transição e de parto doloroso. As formas esgotadas do passado empalidecem-se
e se desfazem para dar lugar a outras; a fé no progresso não caminha sem fé no
futuro, no futuro de cada um e de todos. O progresso não consiste somente nas
obras materiais, na criação de máquinas e desenvolvimento de tecnologias; é
tempo de compreender: a Civilização não pode engrandecer e a Sociedade não pode
subir se um pensamento cada vez mais elevado não vier esclarecer e inspirar os
espíritos, tocando seus corações, renovando-os. Tudo no-lo diz: o Universo é
regido pela lei de evolução.

A Ciência vê alargar-se, sem cessar, seu campo de exploração, mas o espírito
científico só chegará à realidade quando se elevar acima das miragens dos fatos
materiais para estudar as causas e as leis! Não obstante, o espírito humano
avança passo a passo no conhecimento do ser e do Universo e nenhum espírito
perspicaz pode continuar a negar a realidade da outra vida, a esquivar-se às
conseqüências e às responsabilidades que ela acarreta. O que dizemos da Ciência
poder-se-ia dizer igualmente das filosofias e das religiões que se têm sucedido
através dos séculos. A fé cega sucede a incredulidade, o materialismo faz a sua
obra e somente quando ele mostra toda a sua impotência na ordem social é que se
torna possível uma renovação idealista. Até aqui, todos os domínios intelectuais
têm estado separados uns dos outros, mas dia virá em que todos os pequenos
sistemas, acanhados e envelhecidos, fundir-se-ão numa vasta síntese, abrangendo
todos os reinos da idéia. Ciências, filosofias e religiões, divididas hoje,
reunir-se-ão na luz e será então a vida, o esplendor do espírito, o reinado de
uma ética que em nada se contrapõe à máxima deixada por Jesus: “Amarás a teu
Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito; este o maior
e o primeiro mandamento. E aqui tendes o segundo, semelhante a este: amarás teu
próximo, como a ti mesmo” (Mt, 22: 34-40).

Questão intrigante esta: quem é e o que representa em mim o “próximo”?

Diz-nos Emmanuel, em Pensamento e Vida, que a família consangüínea pode ser
apreciada como centro essencial de nossos reflexos que o pretérito nos devolve.
A chamada hereditariedade psicológica é, na verdade, natural aglutinação dos
espíritos que se afinam nas mesmas atividades e inclinações. Nossas emoções,
pensamentos e atos são elementos dinâmicos de indução, todos exteriorizamos a
energia mental, configurando as formas sutis com que influenciamos o próximo, e
todos somos afetados por essas mesmas formas, nascidas no cérebro alheio. Cada
atitude de nossa existência polariza forças naqueles que se nos afinam com o
modo de ser. Somos hoje, deste modo, herdeiros positivos dos reflexos de nossas
experiências de ontem, com recursos de alterar-lhes a direção. Conclusão que se
pode fazer, então, é de que auxiliando a outrem, sugerimos o auxílio em nosso
próprio favor. Suportando com humildade as vicissitudes instilamos a paciência e
a solidariedade em todos aqueles que nos rodeiam.

Vamos encontrar na Psicologia a noção de que o sujeito (ou seja, cada um de
nós), em seus mais variados aspectos, é fruto de um longo processo de construção
histórica, na qual sempre cabe a si mesmo uma parcela de responsabilidade nessa
interação constante e infinda. É claro que nos encontramos em meio a muitas
contingências que têm relevante papel em nossa estruturação psíquica: os pais, o
núcleo familiar maior, grupo social, valores e parâmetros culturais, mas tudo
isso estará sempre incidindo em “predisposições” da própria pessoa e cada um de
nós passará de forma diferente por uma mesma situação, resultando disto, então,
inscrições singulares: ou seja, ninguém vive da mesma forma as mesmas coisas,
devido a uma “bagagem interior” pessoal e intransferível. Portanto, podemos
inferir que a parcela de responsabilidade pessoal sobre o processo de construção
de nós mesmos é, na realidade, maior do que se supõe à primeira vista.

Voltando ao L.E, questão 43, 44 e 45, vamos aí ser informados de que o homem,
na medida em que tem liberdade de pensar, tem a de agir; de que essa liberdade
então, dentro desta lógica, aumenta à medida que se desenvolvem suas faculdades
intelecto-morais (quando, dessa forma, pode responder pelos atos que pratique),
ou seja, sua autonomia em relação ao meio no qual se encontra inserido durante a
reencarnação. Há também a notícia de que a predisposição sobre a qual o meio
cultural, religioso, econômico e familiar incide, nada mais é do que o
entrelaçamento dos valores éticos e experiências anteriormente adquiridas em
outras reencarnações.

No entanto, o outro, ou o próximo, como se referia Jesus, é o espelho no qual
podemos ter o retorno de nossas atitudes, desejos, esperanças e potenciais. Já
no início de nossa vida (de cada uma delas), é o afeto desse outro (de meus
pais, irmãos, parentes, etc) que nos diz que somos queridos, desejados e que de
nós se espera que cresçamos, tomemos nossa vida em nossas mãos, amadureçamos,
sonhemos, creiamos em nós, sejamos felizes. Isso tudo virá alimentar, em nossa
intimidade, nossa natureza intrínseca de amor e de luz.

EU
OUTRO

EU: sou mais livre, quanto mais autônomo for em relação às
vicissitudes da vida social/material; autonomia que se adquire com o
aprimoramento moral e intelectual.

OUTRO: imprescindível ao meu crescimento espiritual, pois minha ação
psico-afetiva sempre passa por ele para a mim retornar; é ele, ou minha relação
com ele, o meu campo de ação.

Há aqui uma relação de interdependência, constante e interminável, e nunca
chegará o dia em que o outro será descartado de nossa vida.

Dissemos ainda a pouco que nenhum espírito perspicaz pode continuar a negar a
realidade da outra vida; tudo isso, é claro, caso o Espiritismo tenha na nossa
vida o papel de um novo momento (de questionamento corajoso, de escolha
tranqüila e consciente, de disposição para não esquivar-se às conseqüências e às
responsabilidades que ela acarreta) e não apenas de mais um momento no qual eu,
sob uma nova nomenclatura religiosa e filosófica, repito hábitos, valores
éticos, reflexos já de há muito tempo por mim cultivados e vivenciados. Essa é
uma escolha que precisa ser feita e ser feita por cada um de nós.

Enquanto insistirmos em permanecer nos mesmos lugares estaremos apenas
reatualizando um esquema de comportamento que tem nos mantido acorrentados a um
ciclo fechado de:

Escolha equivocada Escolha acertada
Remorso arrependimento paz, saúde, alegria
Fixação no erro oportunidade nova de trabalho
sofrimento escolha acertada
sensibilização do espírito

nova oportunidade de trabalho

A questão verdadeira é que as decisões equivocadas nos trarão prejuízos dos
mais variados tipos. Um deles é a instalação de um complexo de remorsos e culpas
que em nada nos ajuda, muito pelo contrário, é responsável por nos acorrentar a
sentimentos de autopiedade, impotência diante de nossas fragilidades morais,
vergonha (de mim mesmo, daqueles a quem amo e de quem foi prejudicado com o meu
equívoco) revolta, tristeza, comportamento de autopunição e autoflagelação.
Nenhuma dessas atitudes nos serão úteis. Arrepender-se é fundamental, mas isso é
diferente de nos enovelarmos em culpas e remorsos. Infelizmente, a fase mais
vivenciada por quase todos nós tem sido a do sofrimento, por não conseguirmos
superar e admitir nossos erros, nos perdoarmos e prosseguir, sensíveis à nova
oportunidade de trabalho (que na verdade nos chega todos os dias mas para a qual
não nos encontramos atentos ou desejosos, por não nos considerarmos dignos de já
sermos felizes, talvez).

Deparamo-nos neste instante com uma outra questão: a do perdão, que é ato
intrínseco ao amar o próximo como a nós, não nos esqueçamos disso.

Parte 3: “Porque paz sem voz, não é paz é medo…” (Falcão, do grupo Rapa)

“O indivíduo constrói-se em seu tempo, em sua cultura, em seu cotidiano…
nos dias atuais o indivíduo confronta-se com uma cultura espetacular e
narcisista… em meio a um contexto de aparências, temporariedades e um culto
excessivo ao corpo e ao eu” ( Caridade, Amparo. 1999 ). O que pode um mundo
assim oferecer a um espírito reencarnante, sempre com o objetivo de
aperfeiçoamento, senão a inevitabilidade do erro?

Segundo Joanna de Ângelis, “existir significa ter vida, fazer parte do
Universo. A existência humana é uma síntese de múltiplas experiências
evolutivas, trabalhadas pelo tempo através de automatismos que se transformam em
instintos e se transmudam nas elevadas expressões do sentimento e da razão. É,
portanto, com alguma ansiedade que hoje, mais do que nunca, nos questionamos:
para que viver? Por que lutar? Como desenvolver essa capacidade de perseverar
até alcançar a meta?

Vive-se e isso é incontestável. Negá-lo é anestesiar a capacidade de pensar.”

Ainda pensando o homem e sua relação com a sociedade, vamos encontrar em Carr
que “o homem é modelado tão eficazmente quanto a sociedade é modelada por ele
(…) e os homens cujas ações os historiadores estudam não foram indivíduos
isolados agindo no vácuo; eles agiram no contexto e sob o estímulo de uma
sociedade passada. A história como processo de interação”, mais adiante,
reafirma: “os milhões sem nome foram indivíduos que, juntos, agiram mais ou
menos inconscientemente e constituíram uma força social (…) a história é um
processo social em que os indivíduos estão engajados como seres sociais; a
antítese imaginária entre a sociedade e o indivíduo nada mais é do que uma pista
falsa atravessada em nosso caminho para confundir nosso pensamento…”. Fica
claro, dessa forma que as transformações e revoluções são feitas em silêncio, no
cotidiano de cada povo, seja no processo de manutenção de mudanças anteriores ou
no engendramento de novas modificações.

Kardec, em um comentário na questão 783 do L.E: “o homem não pode ficar
perpetuamente, na ignorância, porque deve atingir o fim marcado pela
Providência: ele se esclarece pela força das coisas. As revoluções morais, como
as revoluções sociais, se infiltram pouco a pouco nas idéias e germinam durante
os séculos; de repente, estouram e fazem ruir o edifício carcomido do passado,
que não está mais em harmonia com as necessidades novas e as novas aspirações” e
ainda na questão 785: “há duas espécies de progresso que se prestam mútuo apoio
e que, todavia, não marcham lado a lado: o progresso intelectual e o progresso
moral (…)”. Se nos recordarmos de que na fieira das reencarnações vamos
encontrar ora em uma cultura ora em outra (para isso o critério é a conciliação
dos objetivos prioritários para a reencarnação próxima e a experiência
intelecto-moral oferecida por determinado grupo sócio-cultural) será lógico
concluir que nossa atual “cultura espetacular e narcisista” é nada mais nada
menos do que o produto de todos estes milênios de esforços, lutas, quedas e
ascensões de cada um, e de todos nós, que aqui temos vindo em oportunidades
diversas de reeducação espiritual.

Se a tendência aqui representada por Carr, Kardec e Ângelis, de se pensar a
trama social como fruto de uma força constituída inextricavelmente por seres
sociais em processo constante de construção e reformulação, puder ser tida como
consistente e se, além disso, pudermos enxergar o homem e seu cotidiano como
universos que se interceptam naturalmente, que não é possível pensá-los
separadamente; então a única atitude plausível é a de assumirmos nossa
responsabilidade no fato de o planeta ainda oferecer àqueles que pretendem
escrever mais um capítulo de sua epopéia em nosso meio, condições de tamanha
miséria moral e material. Se este é contexto que somos capazes de organizar como
resultado de nossas escolhas éticas, então certamente não há lugar melhor para
reiniciar a caminhada.

Um mundo assim, como o nosso, oferece ao espírito reencarnante, exatamente a
colheita de seu próprio plantio.

Como o aprendizado só pode se dar na medida em que o sujeito se confronta com
as conseqüências de seus atos, nada mais útil à nossa evolução do que
reencarnarmos onde nos encontramos no momento. E quanto à “inevitabilidade do
erro”? A única coisa realmente inevitável é sermos um dia perfeitos ( L.E 116),
relativamente não nos esqueçamos , e por isso felizes na verdadeira acepção da
palavra.

Viver da melhor forma possível é o desafio imediato. Tal conquista sempre se
consegue mediante o esforço da não aceitação comodista, partindo-se para a luta
de crescimento pessoal e de transformação ambiental.

Outra vez, Joanna de Ângelis nos auxilia, dizendo-nos que o próprio esforço
na mínima realização vitoriosa, contribui para o favorecimento da capacidade de
se prosseguir conquistando as metas que, ao serem alcançadas, oferecem outras
novas, que podem proporcionar melhores condições de plenitude. Cada etapa
vencida, portanto, mais capacita o ser para as porvindouras que lhe cumpre
conquistar.

O desaparecimento das tradições que se diluem e que lhe eram paradigmas de
equilíbrio propicia a organização do comportamento conformista, no qual se perde
a motivação não reagindo aos impositivos do meio ou se deixando levar pelos
interesses do grupo, anulando o próprio desejo e paz: sem voz nunca será paz
será sempre medo. Nesse vazio que surge, por falta de motivação real para
prosseguir, foge-se para o alcoolismo , drogas, sexo desregrado, relações
afetivas sem dignidade, ou tomba em depressão; há pouca escapatória para quem
não consegue perceber que

“Enquanto isso // Anoitece em certas regiões // E se pudéssemos // Ter a
velocidade para ver tudo // Assistiríamos tudo // A madrugada perto // A noite
escurecendo // Ao lado do entardecer // A tarde inteira // Logo após o almoço //
O meio-dia se acontecendo em pleno sol // Seguido da manhã que correu // Desde
muito cedo // E que só viram // Os que levantaram para trabalhar // No alvorecer
que foi surgindo” (Marisa Monte e Nando Reis ).

A grandeza da vida nunca vai caber no limite do materialismo, é necessário
“levantar cedo” ou perderemos o “alvorecer” que já vai surgindo e numa
velocidade tal que bem poucos conseguirão acompanhar. Encontramos um exemplo de
como as transformações têm se dado vertiginosamente e de forma tão abrangente,
como nunca se havia pensado ser possível, na informação oferecida por Vesentini
de que “os movimentos ecológicos cada vez mais carregam a bandeira do pacifismo,
em uma luta intensa contra o armamentismo”, ou ainda em Gorz: “trata-se agora de
saber o que desejamos (…) o reino da liberdade não resultará jamais dos
processos materiais: só pode ser instaurado pelo ato fundador da liberdade que,
reinvindicando-se como subjetividade absoluta, toma a si mesma como fim supremo
de cada indivíduo (…), uma sociedade justa e igualitária deverá equacionar
simultaneamente a opressão sexual e étnica, as aspirações por autonomias
nacionais, as desigualdades econômicas e a instrumentalização da natureza, tudo
isso sem ferir o direito à diversidade”. É de uma grandiosidade tal o momento
pelo qual a Terra passa! O encontro afinal se faz: religião, ciência e
filosofia, os universos até então paralelos começam a se fundir na vida
cotidiana de cada uma de nós e já não importa de que lugar nós nos dirigimos à
vida, pois de todos eles já é possível fazê-lo em consonância com o Amor que
sustenta o Universo.

Para alguns, porém, o momento é ainda apenas o da “madrugada perto ou da
noite escurecendo”, e para eles a história chega ao fim. A humanidade teria se
esgotado em suas possibilidades mesmo de sobrevivência, mas também para estes
alguns temos Huntington: “as sociedades que supõem que a sua história chegou ao
fim geralmente são as sociedades cuja história está prestes a entrar em
declínio. Muito mais importante do que a economia e a demografia são os
problemas de declínio moral, suicídio cultural e desunião política. As
manifestações freqüentemente apontadas de declínio moral:

  1. aumento de formas de comportamento anti-social, como crime, uso de drogas
    e violência em geral;
  2. decadência da família, índices mais elevados de divórcio, ilegitimidade,
    gravidez de adolescentes e família de pais e mães sozinhos;
  3. declínio da participação social em associações voluntárias e confiança
    entre as pessoas ligadas a essa participação;
  4. debilitamento generalizado da “ ética do trabalho” e aumento do culto à
    satisfação pessoal;
  5. diminuição no empenho pelo aprendizado e pela atividade intelectual.”

As hegemonias culturais, econômicas e políticas, têm se sucedido e é esse
realmente o processo natural de evolução. Desta forma, se hoje observamos a
deterioração, o conflito e a dificuldade é porque passamos por um momento de
declínio dos valores e paradigmas, devendo permanecer o que de melhor houver
sido produzido. É nesse contexto que nos encontramos inseridos, mas não apenas
como homens, mas principalmente como espíritos, conscientes da realidade da
imortalidade e da reencarnação, da seqüência natural de como a vida flui.

Poderíamos tentar elaborar um ligeiro esquema para melhor entender os fatores
de nossa discussão e seus encontros ou desencontros:

ÉTICA DA SATISFAÇÃO IMEDIATA E PESSOAL CONTEXTO SOCIAL TOMADA DECONSCIÊNCIA

PESSOAL E

COLETIVA

ÉTICA DO AMORUNIVERSAL

Entendemos que a realidade social nunca estará isenta de ideologias. É sempre
permeada pelos valores e juízos das pessoas que a constroem, assim não podemos
compartilhar da confiança que algumas pessoas parecem possuir de que sua vida,
seu fazer cotidiano é apenas de seu interesse, de que seus próprios valores se
encontram libertos de quaisquer interferências culturais ou externas. Somos
todos partícipes de uma realidade que é, inexoravelmente, partilhada por cada
membro.

A atualidade observada é a emergência das heranças de todas as éticas já aqui
experimentada por nós, não há espaço para a neutralidade e os caminhos buscados
ao longo de todos estes milênios. Finalmente trouxeram-nos a um lugar e hoje
percebemos que talvez não fosse exatamente isso que desejáramos.

A interlocução entre uma ética cotidiana e a ética do Cristo ou do Amor
Universal nos parece não apenas viável como também desejável e necessária.
Alguns com certeza se perguntarão se o homem é capaz de tal proeza e muitos
afirmarão ser impossível, mas enquanto estes duvidam e aqueles negam, o Amor
prossegue a nos cumular de bênçãos, a começar com a da própria vida.

O amanhã sempre virá e nunca nos será retirada a oportunidade do recomeço.

Algumas vezes, a palavra foge à exatidão do matemático, ao controle do método
e até mesmo à mentira do sofista. Algumas vezes, só o poeta é capaz de entender
e dizer da mais recôndita esperança ou sofrida angústia, da forma que jamais nos
pareceria possível: com simplicidade. É a eles que neste momento recorro para
encerrar nosso encontro e dizer de minha esperança em uma amanhã de luz, paz e
amor a todos os homens.

“ Amor

Estamos atravessando

O milênio

O novo tempo está chegando

A cor do sol está brilhando

E anuncia

Um novo dia de folia

A inocência, o respeito

A alegria de estar sério

O bom humor e sentimento

Nós vamos levar

Deixar pra trás maus pensamentos

Desequilíbrios, as amarguras

Viver em paz todo o momento

Dentro de casa, no meio da rua

Se você acha impossível

Ter tudo isso e um amor tranqüilo

Que tal tentar só um pouquinho

Experimente ver no que dá

E vê se dá

Experimente

Para ver se dá

Viva sempre

Aproveite o momento

Experimente tentar de uma forma diferente

Experimente pensar só um pouquinho na gente

Mil e uma lendas do nosso milênio”. ( Da Gama, Lazão, Bernardo Vilhena)

Bibliografia

  • Angelis , Joanna – SOS Família
  • Angelis, Joanna – Amor Imbatível Amor
  • Angelis, Joanna – Vida Feliz
  • Caridade, Amparo – O Prazer e o Pensar, vol. ll
  • Carr, Edward – A Sociedade e o Indivíduo
  • Denis, Leon – O Problema do Ser do Destino e da Dor
  • Dellane, Gabriel – A Alma é Imortal
  • Emmanuel – Pensamento e Vida
  • Gorz, André – Natureza e Revolução
  • Huntingon, Samuel – A Nova Era da Política Mundial
  • Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos
  • Kardec, Allan – O Evangelho Segundo o Espiritismo
  • Kardec, Allan – A Gênese
  • Vesentini, J. Willian – Geografia, Natureza e Sociedade

 

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